Ponto Vermelho
Divagações sobre temas candentes do momento
24 de Março de 2015
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1. Fruto da evolução dos tempos passou a ser aceite, nalguns sítios, a magna questão das arbitragens para justificar fracassos dos treinadores e das opções estratégicas dos clubes. A vozearia que se faz ouvir serve, em muitos casos, para ludibriar os adeptos dos clubes e esbater-lhe os sintomas de indignação quando a equipa perde ou não alcança um objectivo tido à partida como atingível. Mesmo dando de barato a eterna magia e imprevisibilidade do futebol.

2. Para tentarmos ser precisos e coerentes, é curial dizer-se que ninguém pode orgulhar-se de, nesta ou naquela época, aqui e ali e com mais ou menos insistência, ter omitido críticas à arbitragem, responsabilizando-a por inêxitos que acabou por não conseguir ou por provas ou campeonatos que não obteve. É uma evidência dos tempos e a demonstração de uma característica bem ao jeito luso de tentar sempre culpabilizar os outros para que possa alijar responsabilidades e culpas em qualquer processo.

3. A trajectória sem ‘picos’ evolutivos que o futebol português registou nas três décadas de apogeu pintista, cedo mataram veleidades a quem quer que fosse para poder contestar uma superioridade que pareceu indiscutível aos olhos da opinião pública. Para além do domínio incontestado dos bastidores e dos bas-fonds onde sempre se decidiu a parte de leão do que posteriormente acontece nas quatro linhas, beneficiou da domesticação do Sporting que vegetando na sombra e hipotecando a imagem de um passado digno de realce, se submeteu aos ditames impostos pelo clube da Invicta, com o aliciante extra de suplantar o Benfica que atravessava então uma crise de grandes proporções.

4. A possibilidade de reacção encarnada só veio a acontecer anos depois com a conquista do campeonato na temporada de 2004/2005 em que ficou claro que ainda não era o momento de poder falar-se num eventual fim de ciclo, dadas as ainda bem visíveis fragilidades do edifício encarnado. Mas, para os adeptos com memória, foi bem documentado o excesso manobrista dos auto-proclamados eternos vencedores que recorreram a todo o tipo de expedientes dilatórios e manobras intriguistas para apoucar os êxitos do Benfica. Foi evocado o célebre jogo com o Estoril no Algarve para enfatizar um pretenso favor (omitindo as deslocações à Maia do FC Porto…), e, como não podia deixar de ser, o decisivo lance do falhanço de Ricardo que Luisão aproveitou, mas que os mais fanáticos leoninos ainda hoje atribuem a um erro arbitral. Aproveitado, como é óbvio, pelo FC Porto…

5. Do lado dos homens do regime nada de especial a relevar depois até 2008/2009. Pudera, se até aí só se registaram vitórias portistas... Mas a época seguinte viria a sofrer uma mudança de paradigma; o Benfica com significativas melhorias no esquema organizativo, reforçou o plantel significativamente e chamou Jorge Jesus para dirigir a equipa. A equipa correspondeu em absoluto com um futebol espectacular e resultados a condizer. Ao ponto de o seu principal opositor ter sido o SC Braga apoiado incessantemente pelos anti-benfiquistas, a começar pelos portistas muito cedo arredados da discussão e, claro, por Alvalade. Quem não se lembra do Sporting-Braga com os adeptos leoninos a cantarem a plenos pulmões que só queriam o Domingos (então treinador bracarense) campeão?; ou da promessa solene de Pinto da Costa de oferecer o título a Pedroto?

6. Mas no ciclo anterior com as arbitragens a atapetarem por sistema o caminho do FC Porto, os indignados que já se tinham feito ouvir em 2004/2005 e que repetiram o clamor em 2009/2010, permaneceram calados, pois as três épocas seguintes trouxeram a normalidade. A de 2010/2011 por inépcia cedo deixou o Benfica afastado do título, a seguinte misturou normalidade com falhanço encarnado e a seguinte, em jogos decisivos como o de Coimbra e o da Luz com o FCP, voltou ao apogeu do antigamente. Quando os benfiquistas se queixaram de serem espoliados perante a indiferença dos media, foram acusados de burros…

7. O êxito benfiquista da última temporada inverteu de novo a agenda mediática com a utilização dos habituais expedientes (arbitragens expulsões, sorte, favores, etc) e na presente com os túneis em desuso, voltaram em força as arbitragens, provando-se que afinal o dissertar ‘indigno’ sobre os homens do apito não era um exclusivo dos burros… Uma significativa evolução argumentativa para a qual a única justificação é uma intensa preocupação e desespero…

8. Estas estratégias muito em voga naqueles que revelam incapacidade para assumir a realidade sem recorrer aos truques e manigâncias que a História abundantemente regista, tem trazido, todavia, nuances que advogam a necessidade e a imaginação de apresentarem velhos factos com uma nova roupagem. Essas estratégias passam por explorar novos caminhos. Por exemplo o de forçar expulsões quando a marcha do resultado já não permite a recuperação. E aí, face à brandura dos regulamentos em vigor, determinado(s) jogador(es) faz(em> entrada(s) duríssima(s) sobre jogador(es) influente(s) da outra(s) equipa(s) que corre(m) o risco de ficar lesionado(s), alivia a tensão e abre(m) caminho à desculpa do(s) seu(s) técnico(s) que pode(m) sempre argumentar que perderam devido à inferioridade numérica. É a batota 'legal'!

9. Embora isso seja agora mais evidente face ao mediatismo que gera, a verdade é começou a ganhor contornos desde 2009/2010. De então para cá com especial incidência sempre que o Benfica está com possibilidades de ganhar, assistimos a autêntica caça ao homem em que invariavelmente os jogadores encarnados mais talentosos sofrem entradas a varrer com risco acrescido da sua integridade física, como por exemplo no jogo de Braga com Danilo e Rúben Micael. Estes dois procedimentos estão a fazer escola, pois além de intimidarem os jogadores encarnados que receam obviamente lesões graves, têm servido igualmente para promover a algazarra de que o Benfica só consegue vencer contra 10, mesmo que o resultado já seja dilatado. Não foi por acaso que o inefável MS Tavares glosava hoje esse tema… Apenas se esqueceu que foi com 10 que o Benfica eliminou o FC Porto da Taça de Portugal…


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