Ponto Vermelho
A inevitável formação…
5 de Abril de 2015
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Épor demais evidente que as fases importantes e decisivas de um determinado plano estratégico de base demoram anos a ser construídas e implementadas, pois para além de terem que levar em linha de conta a(s) conjuntura(s) e as perspectivas de futuro, estão sempre sujeitas aqui e ali, a sofrer erros e desvios. Assim sendo, até que possam ser obtidos resultados palpáveis em função do plano de investimento e das projecções realizadas pode distar um horizonte temporal apreciável, senão mesmo acidentes graves no percurso. Num processo bem desenhado e sem percalços desde o início até à produção de resultados poderão distar vários anos, até que seja atingido o break even point. Isto em qualquer projecto de sucesso.

O Benfica, por força de conjunturas distintas que previlegiavam a sua principal equipa de futebol em detrimento de muito do resto apesar do ecletismo que sempre foi a sua imagem de marca (aparte o período conturbado de final do século passado), enfermou naturalmente de vícios e vicissitudes no plano da formação de jogadores. Valdivielso através de um trabalho competente e profícuo deu-lhe projecção e desenvolvimento, mas sabe-se que qualquer trabalho de fundo se não for coerente e devidamente acompanhado tendo em consideração que nunca está completo, corre o risco de se extinguir mais rapidamente do que se julga. Não só porque não tem visibilidade e porque obriga a alocar diversos tipos de meios (humanos, financeiros, etc). E isso, como se sabe, nem sempre é possível.

Tal como aconteceu na organização do Clube nas suas várias componentes, a equipa principal entrou por caminhos de plano inclinado e o que na altura existia da formação seguiu caminho ainda mais gravoso, podendo a determinada altura considerar-se como praticamente extinta. Todos sabemos da facilidade com que se pode acabar uma determinada ideia no terreno e da tremenda dificuldade com que se reedita a implementação de um novo projecto. Sobretudo quando na altura do arranque não existem meios de qualquer espécie e é-se obrigado a apagar fogos que lavram por todo o lado. Foi isso que aconteceu com a Formação encarnada que como algumas vezes aconteceu à equipa principal, teve que andar amiúde com a mochila às costas 'saltando' de campo para campo, perdendo dinâmica e sendo extinta por decisão política. Apenas arrancou e estabilizou em bom rigor uma mão cheia de anos depois com a inauguração das infraestruturas do Seixal.

Nessas circunstâncias, por mais planos que se tracem é complicado esperar coerência e exigirem-se resultados, porque um projecto desta envergadura de natureza transversal mesmo que não seja afectado por grandes contratempos, requer investimentos significativos e demora sempre vários anos a produzir efeitos. Isto admitindo que a matéria-prima que vai surgindo seja de molde a poder ser trabalhada para poder gerar ânimo e entusiasmo na prossecução do objectivo de revelar e aproveitar novos talentos. Sabendo-se que os jovens portugueses têm qualidades inatas para a prática desportiva e particularmente do futebol, é no entanto preciso descobri-los e atraí-los para o projecto, dando-lhes condições para que possam ser potenciados no futuro. Para isso é necessário dispôr de condições, de tempo, e de meios financeiros e humanos.

Como princípio-base, aparte a conjuntura evoluir para situações complicadas do ponto de vista económico-financeiro, o trabalho que há vários anos foi encetado no Seixal tinha subjacente a lógica coerente em vertentes mais alargadas relacionadas com os atletas para além das desportivas, sendo que neste último patamar estava o aproveitamento de talentos para a equipa principal e a sua valorização, tendo como base o princípio do mérito. Esse era o fim em vista ao mesmo tempo que incentivava cada vez mais a adesão ao projecto de jovens ambiciosos e a revelarem potencial para se afirmarem ao mais alto nível num horizonte relativamente próximo. A ser assim e sem perder de vista a política que tem vindo a ser seguida de descobrir e revelar jovens valores estrangeiros, evitava-se um maior dispêndio de verbas que poderiam ser libertadas para outras áreas e estabelecer assim o equilíbrio num projecto globalmente pensado.

Do nosso ponto de vista a 'fábrica' atingiu, finalmente, o ponto de equilíbrio através do despontar de novas gerações de valores cada vez em maior quantidade em todos os escalões, o que pressupõe uma avaliação muito positiva deste macro-projecto. Não se pense, todavia, que basta carregar no botão para que tudo siga o seu curso normal, pois há diversas variáveis demasiado complexas que poderão complicar de alguma forma as projecções mais optimistas. A fase complicada que todos atravessamos apenas veio dar maior ênfase e quiçá uma maior aceleração e antecipação ao projecto, pois o agravamento do cenário económico que afectou as tradicionais fontes de apoio e financiamento e decisões das instâncias superiores do Futebol, colocaram em causa a resposta ao mais alto nível competitivo das principais equipas portuguesas. A questão dos Fundos conjugada com a falência das principais entidades patrocinadoras do futebol em Portugal, obrigaram a repensar todo o edifício e a procurar novas soluções que não façam perigar a competitividade dos clubes no futebol, polo principal de actividade para a manutenção do seu equilíbrio global.

Depois de se constatar que a Formação encarnada está madura e a produzir resultados condizentes com o idealizado, faz por isso todo o sentido aquilo que tem vindo a ser anunciado de passar das palavras aos actos, incorporando, desenvolvendo e projectando jogadores que dão mostras de poderem vir a corresponder, muito embora a complexidade da transição possa deixar vários pontos de interrogação. Porque a equipa principal deverá sempre manter uma rotina e base de experiência acumuladas indispensáveis para atingir objectivos que de outra forma não conseguirá, sendo que os novos elementos que reclamam mais atenção para novos patamares deverão ter a consciência plena de que não basta ter talento mas é fulcral ter paciência e saber esperar a sua oportunidade para demonstrar que com humildade, trabalho e persistência poderão atingir os estádios a que aspiram. Se assim for, o futuro e a competitividade da Formação encarnada estarão assegurados.






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