Ponto Vermelho
Fundos: essa praga ameaçadora do futebol…
15 de Abril de 2015
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Enquanto está por aferir as reais dimensões e implicações da medida implementada pela FIFA da proibição dos Fundos serem detentores de qualquer parcela (por mais ínfima que seja) dos direitos económicos dos jogadores de futebol ('TPO') e que entra em vigor no próximo dia 1 de Maio, vai aumentando a contestação institucional a nível ibérico e multiplicando as tendências e as opiniões pró e contra tal medida. A nível dos maiores clubes portugueses já se sabe que o presidente leonino é um intrépido adversário dos Fundos por razões que se percebem mas que o próprio ainda não conseguiu explicar de forma cabal e convincente, sendo que o ressalta é o total alinhamento com uma corrente com ramificações a vários níveis incluindo no seio das principais instâncias futebolísticas. É sempre bom estar do lado de que sopra o vento…

Já se percebeu que este assunto é sensível e da maior importância sobretudo para os clubes ibéricos, está longe de ser pacífico, porquanto as opiniões divergem até no seio dos próprios clubes. Estamos inteiramente de acordo que a situação ideal seria os direitos económicos serem pertença integral dos clubes. Mas quando a questão do poder aquisitivo está deveras limitada como tem sido o caso dos nossos principais clubes, as alternativas que se apresentam para poder manter a cabeça à tona de água e poder dar alguma réplica competitiva aos que essa questão não se coloca escasseiam, o que tem obrigado a difíceis exercícios de imaginação para suprir tão gritantes lacunas e dificuldades.

Sempre que os FIJ vêm à baila é evocado o exemplo dos clubes ingleses e dos alemães que há anos baniram essa prática. Salvo as devidas diferenças e o respeito, será o mesmo que comparar as possibilidades de um Arouca ou de um Moreirense se movimentarem no mercado em comparação com um FC Porto ou com um Benfica. Não é nem jamais poderá ser comparável a situação económica e de desenvolvimento entre Portugal e os países dos clubes aludidos por um lado e, ainda mais importante no aspecto futebolístico, é incomensurável a diferença entre as receitas televisivas que os clubes ingleses e alemães usufruem comparativamente com a situação portuguesa a nível dos nossos clubes do topo.

Isso explica, em grande parte, a razão que para se manterem com um nível competitivo aceitável, os principais clubes portugueses tenham recorrido a outras fontes de financiamento que durante anos e anos se cingiu à banca e a acordos com alguns patrocinadores importantes, dadas as dificuldades em gerar receitas que em muitos casos mal davam para cobrir as despesas correntes. Com o fecho da torneira pelas razões de todos conhecidas, as alternativas não abundam e como é óbvio a intervenção dos FIJ com todas as suas virtudes e defeitos permitiram em simultâneo a vinda de jogadores com elevado potencial para Portugal e a sua subsequente venda com importantes mais valias para os clubes.

Reconhecemos que as potencialidades do negócio deram origem a aproveitamentos e a uma proliferação de Fundos mas, tal facto, deveu-se à inércia e à falta de regulação das entidades competentes. Como, aliás, também acontece em qualquer sector de negócio, onde aspectos menos claros e mesmo alguma bagunça sobressaem propiciando conflitos de interesses latentes. Mas sendo esse um facto insofismável e reconhecido, porque razão a FIFA e a UEFA não legislaram ao ponto de disciplinar essa situação que poderia configurar uma ameaça para um salutar equilíbrio e desenvolvimento do futebol? Porque razão não se atacou o problema de fundo e se deu relevância a apenas aspectos residuais do problema?

Para financiar um clube ou permitir a este ter ao seu dispôr um determinado futebolista, qual é a diferença entre um Fundo (desde que obedeça a todos os requisitos legais e de funcionamento) e uma entidade bancária que recebe como penhor o passe do próprio futebolista? Não será que a questão principal é a origem do dinheiro subjacente ao financiamento? E já que estamos em maré de dúvidas, qual é a diferença entre um Fundo que procede à aquisição de uma qualquer empresa num qualquer sector de actividade (inclusivé instituições financeiras) como temos vindo insistentemente a observar, e um Fundo legal que permite a um clube dispôr de jogadores para deles recolher proveitos desportivos e financeiros?

Muitas mais questões poderiam ser colocadas. Por exemplo, a grande maioria dos principais clubes europeus que mudaram de dono não foram, em boa parte, adquiridos por Fundos como por exemplo o Chelsea de Abramovich? E o principal patrocinador da UEFA (a empresa russa Gazprom) que patrocina em simultâneo clubes de diferentes países e que, por acaso, até disputaram a Champions não gera conflito de interesses? Por isso mesmo, a medida de proibição dos Fundos imposta pela FIFA, para além da duvidosa legalidade da medida do ponto de vista da legislação comunitária e da dos próprios países, permite concluir que é um medida avulsa para satisfazer unicamente os interesses dos mais poderosos. Mas, pelos vistos, há ainda quem não queira perceber essa verdade elementar. Só quando a sentirem na pele…






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