Ponto Vermelho
Será a democracia castradora da ética e da responsabilidade?
25 de Abril de 2015
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1. Comemora-se hoje mais um aniversário da Revolução de Abril que devolveu há mais de quatro décadas o conceito de liberdade e democracia num País a viver num longo período de obscurantismo, com a mordaça a cercear os direitos mais elementares dos cidadãos. Uma volta por parte do País permitiu-nos ver em certas lapelas e nalgumas cabeças o símbolo que imortalizou a data – o cravo vermelho–, mas aparte isso e excluindo as obrigatórias realizações oficiais, poder-se-ia dizer que está cada vez mais distante a euforia da libertação daquilo que pressupunha ser a consciência da esmagadora maioria dos portugueses.

2. Não se estranha que assim seja. Afinal, os jovens de então muitos deles já são avós, o que significa que duas gerações passaram sobre tão histórico e marcante evento. Aceita-se pois sem qualquer titubieza que essas novas gerações não atribuam qualquer valor a um conceito que sempre viveram – a liberdade. Mas essa mesma liberdade deve ser vista e observada sob um prisma amplo, porquanto está muito longe de se esgotar na ideia tradicional do agora podemos dizer tudo. Pelo contrário, ela estende-se e completa-se quando os cidadãos realizam as suas necessidades e anseios mais comezinhos, um direito inalienável que lhes assiste na medida em que liberdade e democracia significam ou deveriam significar, uma maior igualdade de oportunidades em todos os capítulos. Não é isso que se passa como sabemos.

3. Quer na distribuição e penalização dos sacrifícios quando os ventos da História, a gula e a incompetência dos Homens nos arrastam para patamares insólitos e mesmo nada recomendáveis, quer no mais lógico e consequente – a vivência em épocas tranquilas em que um maior fulgor económico permite o progresso e o desenvolvimento social e a satisfação das necessidades básicas dos cidadãos. É aí que reside o grande busílis da questão na medida em que não é isso que está a acontecer, em que as crescentes desigualdades têm permitido o agravamento das assimetrias que aliás sempre existiram, e isso é antítese do que deve ser um País moderno, democrático e europeu. Mesmo empurrado contra o mar.

4. Mais uma vez a experiência revela-se um factor determinante na avaliação. É por isso que os avós do 25 de Abril serão, porventura, os únicos que estão em condições de estabelecer padrões comparativos. Mas para além do conservadorismo, da subserviência e até mesmo do reaccionarismo que sempre por cá andou e que podemos infelizmente continuar a observar em muitos extractos da sociedade mesmo os mais avançados, muitos deles têm dificuldade em compreender como se conseguiu desbaratar uma tão grande oportunidade histórica de se avançar e ingressar definitivamente no clube do progresso e do desenvolvimento. Sobretudo a nível das mentalidades uma das grandes lacunas do nosso tempo.

5. É certo que a liberdade trouxe com ela excessos motivados por quem não estava em condições de interpretar fielmente o conceito e que, através dos seus exemplos de vida, transmitiu aos seus filhos e aos seus netos princípios completamente errados que sucessivamente se têm transformado em bolas imparáveis. A irresponsabilidade de quem julga que tudo pode dizer e fazer afectou sectores vitais, estendeu-se à imprensa, e os reflexos não tardaram em se fazer sentir. Na desportiva (e mesmo nas áreas de desporto dos generalistas), temos assistido ao longo das quatro décadas a um despautério constante com os jornalistas sérios e responsáveis a serem engolidos pela turba. E é dos livros que, quando meia-dúzia tenta fazer valer os seus argumentos, por mais razão que lhes assista, logo são abafados pela multidão aparte as teses falaciosas desta.

6. A crise económica acelerou o compadrio, o oportunismo, a bajulação e a incompetência; a ética e o rigor foram relegados para as calendas e o sensacionalismo bacoco e inconsequente marcou há muito lugar na primeira fila. O conceito generalista dos cidadãos acabou por envolver os que sempre se mantiveram fiéis aos princípios que beberam da velha escola e que se torna imperioso distinguir por ser de justiça. Muitos dos problemas que têm surgido no sector do desporto, para além de terem outros actores como protagonistas, foram ampliados por alguns irresponsáveis a gravitar nos media para alcançarem os seus objectivos inconfessáveis, contando com a aceitação de muitos que não estão em condições (nem pretendem) encontrar o contraditório. Isso, todavia, não nos impede de afirmar que consideramos incrível o recente projecto levado a cabo na AR pelos três principais partidos. Como é possível em mais um aniversário do 25 de Abril e da liberdade estarmos a falar de castração?








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