Ponto Vermelho
Tarde de negação
27 de Abril de 2015
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É inegável que a tarde de ontem no relvado da Luz prometia um jogo muito competitivo, com emoção a rodos e com resultado imprevisível, ou não estivessem em compita as actuais duas melhores equipas do futebol nacional. Durante os dias que antecederam o clássico discutiu-se de forma exaustiva os vários cenários e a eventual influência negativa que o resultado impensável de Munique teria na mente da equipa técnica e dos jogadores azuis e brancos, sendo que boa parte das baterias apontava para uma reacção enérgica dos portistas. Não só porque defrontava o seu principal competidor, mas de igual modo a necessidade imperiosa de vencer se ainda queria manter aspirações ao título.

Devemos sublinhar que, apesar do ambiente fantástico que se viveu nas bancadas da Luz esgotadas e com magníficas coreografias a condizer com a importância do prélio, o jogo em si, para quem antes de tudo o mais aprecia um bom espectáculo futebolístico, constituiu uma enorme desilusão. Foi um jogo sensaborão, despido de emoção e que, a menos que acontecesse algo imprevisível, iria acabar como começou – com resultado final insípido. O que, para quem aprecia e está sempre a evocar estatísticas foi útil, pois acabou por anotar mais uma; terminou a série de 92 jogos para o campeonato do Benfica sempre a marcar golos no seu anfiteatro. Era bom mas algum dia tinha de acabar…

Para cúmulo, até um dos habituais temas em destaque – a arbitragem – não deu motivo para grandes reparos, pelo morreu à nascença esse eventual foco de conflito sempre presente nas grandes ocasiões para justificar resultados menos conseguidos. E mesmo as ligeiras e obrigatórias referências de Julen Lopetegui ao trabalho de Jorge Sousa, foram mais sinónimo de que o treinador basco queria manter a coerência de abordar sempre as arbitragens, do que propriamente por profunda convicção nos erros do juíz portuense. Que os teve, naturalmente, mas não influiu de modo nenhum no nulo final.

As coordenadas eram claras; ao entrar na Luz com um atraso de 3 pontos e a desvantagem de um resultado adverso de 2 golos sem resposta registado na 1.ª volta no Dragão, competia ao FC Porto desencadear as hostilidades com um onze ambicioso e virado para o ataque com a finalidade de neutralizar o atraso pontual e, se possível, anular o goal-average que poderia vir a revelar-se decisivo no final. Por sua vez o Benfica dispunha de possibilidades mais variadas, desde a vitória que praticamente lhe garantiria o campeonato, do empate que deixaria tudo na mesma em termos pontuais mas teria dois efeitos positivos: asseguraria definitivamente vantagem em caso de igualdade pontual final e eliminaria o cenário dos portistas dependerem apenas de si próprios. Finalmente, até com a derrota desde que por margem mínima, continuava a manter hipóteses de se sagrar campeão, embora aqui as perspectivas pudessem vir a ser mais sombrias, particularmente em relação à importante componente psicológica.

Era pois expectável que a equipa portista tentasse desde o primeiro minuto o assalto à baliza de Júlio César. O que se verificou foi exactamente o contrário; um Porto de facto com muita posse mas algo descaracterizado e ineficaz, com duplo pivot defensivo e abandonando Jackson Martínez à sua sorte. Uma das leituras que poderão ser feitas, porventura a mais lógica, é que Lopetegui teve receio do poderio atacante encarnado na Luz e tentou proteger a sua baliza, dado que na eventualidade de vir a sofrer um golo nos minutos iniciais isso poderia afectar de forma irreversível a parte mental da sua equipa ainda mal refeita da goleada alemã.

O treinador encarnado, amputado de uma das suas gazuas – Salvio – que não só transmite velocidade e acutilância ao flanco direito como protege bem a sua retaguarda, decidiu jogar pelo seguro apostando numa estratégia conservadora e quiçá pragmática ainda que mantendo a sua equipa habitual, apenas com a inclusão de Talisca que, mais uma vez, provou que não é jogador para desenvolver a sua actividade nas faixas laterais pois não só não têm velocidade, como se revela fisicamente frágil no confronto com jogadores de maior poderio físico, rápidos e com poder de antecipação. Todavia, a postura retraída do FC Porto (para o que é habitual) ajudou a uma maior concentração de jogo na zona central, pelo que acabou por não se notar essa lacuna corrigida na 2.ª parte.

Porque a principal preocupação dos dois treinadores foi a protecção das suas balizas, as equipas encaixaram uma na outra com constantes disputas de bola na zona central do meio-campo pelo que os dois guarda-redes tiveram direito a passar uma inesperada tarde de folga. As oportunidades foram praticamente inexistentes ao longo dos 93 minutos, com excepção de dois ressaltos (um em cada grande área) que deram origem a remates com algum perigo. Logo o nulo assenta bem às duas equipas dado que ambas jogaram (apenas) para não perder. De resto muita luta, muitas faltas, completa neutralização dos criativos e pouca emoção. Do ponto de vista dos benfiquistas acabou por acontecer um resultado positivo pois aproxima mais os encarnados do objectivo, enquanto os portistas se devem estar a interrogar sobre a razão que levou o seu treinador a inventar mais uma vez. Seja como for, exige-se mais a duas equipas que tinham obrigação de fazer mais e melhor.

P.S. 1 – Parabéns ao capitão Luisão e ao treinador Jorge Jesus por terem atingido marcas que os consagram de forma definitiva na história gloriosa do Benfica;
P.S. 2 – Nota negativa para a atitude lamentável da claque portista ao não respeitar o minuto de silêncio em memória do ex-presidente da MAG benfiquista José António Martinez;
P.S. 3 – Nota igualmente negativa para alguns dos (habituais?) bombistas inseridos numa das claques benfiquistas que foram incansáveis no rebentamento de petardos. Continuamos a não entender o objectivo da façanha que só prejudica o Clube, como continuamos a não perceber como tudo permanece inalterável.






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