Ponto Vermelho
A metodologia da inversão…
5 de Maio de 2015
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Era deveras desejável que os desafios de futebol e por extensão os títulos, fossem resolvidos única e exclusivamente dentro das quatro linhas sem recurso a quaisquer manobras ou ardis. Mas o simples facto de o factor humano ter influência directa faz com que, de forma transversal, aqui e ali, haja a tentação de alterar as regras em benefício próprio ou, menos gravoso, tentar criar desestabilização no adversário que maior sombra faz e constitui o principal obstáculo à consumação dos objectivos delineados. De há muito que a isso estamos habituados, muito embora nem sempre o antídoto utilizado para neutralizar ou pelo menos minorar os efeitos dessas estratégias ínvias tenha sido o mais ajustado e eficaz para combater as circunstâncias.

Vários personagens e estruturas têm sobressaído nesse particular, não sendo por demais citar um dos percursores contemporâneos – José Maria Pedroto – ao qual Pinto da Costa deu seguimento com o sucesso continuado que se conhece. Neste momento é sobejamente conhecido o caso de José Mourinho que, depois de passar pela escola do FC Porto, tem repetido a dose pelos vários países por onde tem passado sem que os seus adversários tenham encontrado o antídoto para o combater. Uma realidade que, concordemos ou não com ela, abona a favor do treinador português mais laureado, conhecidas que são todas as resistências que tem encontrado, desde colegas de profissão, dirigentes e profissionais da imprensa.

Por cá também continuamos a consumir, ainda que cada vez com menor sucesso. A época que está prestes a chegar ao fim prometia uma luta sem quartel dadas as implicações que poderia acarretar especialmente para os vencidos e em particular se desse lote fizesse parte o FC Porto, que depois de falhar na temporada anterior não poderia correr o risco de fracassar de novo, porque isso poderia significar nova vitória do seu principal rival dos últimos anos com a conquista do bi-campeonato e a reedição de um facto ocorrido há mais de três décadas. E a acontecer, sendo prematuro falar-se de fim de ciclo, a leitura mais lógica poderia querer significar uma mudança de paradigma. É que no futebol aliás como na vida, as situações ainda que nem sempre, acontecem de forma rápida e inesperada.

Sentindo isso pela primeira vez após três décadas de sucessos em segurança e sem ameaças, os responsáveis azuis e brancos fizeram aquilo que seria o mais lógico; dotar o plantel de matéria-prima com valia e margem de progressão, escolhendo para os comandar um treinador basco com experiência e sucesso nas camadas jovens de Espanha. Não havendo dinheiro para um investimento tão arrojado foi-se à procura dele, ainda que com cedências, hipotecas e compromissos subjacentes. Mas temos que convir que era a única forma de encetar uma fuga para frente e aceitar um risco que depois da poeira e do marketing inicial assentarem, estava bem presente e não permitia falhanços ou retrocessos. Se ganhasse era apenas uma consequência lógica desse forte investimento, se perdesse não havia como justificar o insucesso até porque a concorrência não parecia, em primeira análise, com hipóteses de lhe fazer frente.

Na frente interna, a irregularidade exibicional conduziu a resultados pouco condizentes com aquilo que parecia ser a valia do plantel e isso trouxe instabilidade e perda de pontos no campeonato. Na Taça de Portugal acabou por ver o imberbe Sporting eliminá-lo em pleno Dragão e, mais tarde, na prova mal amada da Taça da Liga haveria também de cair na Ilha dos Horrores. A contestação latente só não subiu mais de tom porque de permeio, a Europa ia servindo para animar e disfarçar as lacunas nacionais. Mas também aqui, é preciso dizê-lo, ao mérito do avanço na prova esteve sempre associada até aos quartos de final uma acentuada dose de fortuna nos sorteios, criando uma falsa imagem de poderio que não existia na realidade.

No último terço da época, como sempre acontece, começaram as definições. Na Liga dos Campeões com a entrada no lote dos oito a sorte que sempre tinha estado presente decidiu virar costas e ir para outras paragens e, sendo previsível e aceitável a eliminação, o que surpreendeu foi a fraquíssima prestação em Munique que pôs a nu os desequilíbrios no plantel, porquanto não é aceitável que com tão forte investimento, na ausência dos dois laterais titulares não houvesse substitutos directos. A Luz apenas confirmou aquilo que há muito se vislumbrava – o plantel portista está longe de corresponder àquilo que dele querem fazer crer.

É certo que terá havido erros e más avaliações do treinador. Mas é redutor pretender afirmar-se que foram dele as únicas culpas, pois a equipa claudicou em demasia. Enquanto internamente o balanço está a ser feito, foram criadas com a ajuda de alguma imprensa distracções como as arbitragens para desviar as atenções do verdadeiro problema. Não foi por acaso que na última semana o foco incidiu sobre o fait-divers com Jorge Jesus e da renovação ou não deste, em vez de ser abordado o momento presente do FC Porto que salvo qualquer surpresa de última hora, fica a ver os outros ganharem tudo. Para quem tem o melhor plantel de sempre do futebol português deve ser terrivelmente frustrante…

PS: O destino tem que se lhe diga… Então não foi que depois de uma semana a desancar em João Capela e a sugerir que um dos árbitros para Barcelos deveria ser Marco Ferreira, este teve uma arbitragem desastrada em Setúbal?






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