Ponto Vermelho
Esquemas óbvios e recorrentes
17 de Maio de 2015
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Estão há muito identificados os principais cancros do futebol português. Com efeito, admitimos haver alguns que não podem ser extirpados de ânimo leve por um conjunto de razões que se prendem à recorrente assimetria estrutural em que sempre vivémos muito difícil de ultrapassar, pois a escassez de meios está associada à falta de vontade política. Os outros também continuam a existir da forma como os conhecemos, porquanto época após época se finge ignorar o problema de fundo. E é aí que está o busílis da questão porque estes sim têm solução, mesmo que isso passe por decisões drásticas. Mas, lá está, é preciso vontade política.

O faz de conta que tem feito escola no futebol luso é o grande responsável pelo arrastar do problema. Se existem clubes seja qual for o escalão, posicionamento geográfico ou enquadramento histórico que por esta ou por aquela razão, por mais vontade que lhes assista ou esforços que desenvolvam não estão em posição de cumprir com as suas obrigações correntes, então deverão ceder o lugar àqueles que o fazem mesmo que isso implique a travessia no deserto. Como salvo honrosas excepções nunca o farão de motu proprio, então compete às entidades responsáveis obrigá-los sem qualquer hesitação, por mais doloroso que seja.

Ora é aqui que reside o principal obstáculo. Não temos dúvidas que aqui e ali tem havido algum facilitismo por parte de quem tem tido a responsabilidade de fiscalizar e fazer aplicar a lei. Não é de agora que isso se passa. Mas também não ignoramos que, tal como em muitos outros aspectos dentro e fora do desporto e do futebol, as leis e os regulamentos em vigor permitem escapatórias legais, o que faz com que se protele sistematicamente a resolução de um problema gravíssimo que já nem sequer devia existir. Se dantes havia mais comedimento na sua divulgação, hoje em dia temos a possibilidade de poder acompanhar essa saga aparentemente sem fim à vista.

Nesta temporada como afinal em todas as do passado recente, Joaquim Evangelista como é aliás sua obrigação, tem vindo a denunciar situações dramáticas de ordenados em atraso e irregularidades várias na assumpção de responsabilidades por parte de alguns clubes. Para além dos compromissos contratuais não respeitados, há a Segurança Social, o IRS, o IVA e até o Seguro dos jogadores. Como a máquina é demasiado lenta a actuar, mais tarde ou mais cedo e às vezes até na primeira metade da época, a imprensa noticia casos de incumprimento por parte de alguns clubes que continuam a competir sem que males aparentes advenham a não ser a inscrição do seu nome na lista de caloteiros. Os nomes são conhecidos.

É constatável a posição de muitos jogadores (parte dos quais estrangeiros) que fogem da exposição pública com medo de represálias das entidades patronais. E só quando o seu estado de desespero atinge níveis incomportáveis é que ouvimos as denúncias na primeira pessoa. O que revela quanto é lamentável por parte dos clubes assumirem responsabilidades que logo à partida têm bastas possibilidades de não virem a ser cumpridas. Para além de que gera situações de ordem social muito graves, há um outro aspecto igualmente ostensivo que passa pelo planeamento de cada época onde os clubes fazem a orçamentação que supostamente deveria ser realista e com possibilidades de cumprimento, a menos que surjam imponderáveis e factores imprevistos. Não estamos a falar desses. Falamos daqueles que elaboram orçamentos irrealistas que em rigor nunca podem ser cumpridos, visto que as despesas sobrelevam sempre largamente as receitas.

A fobia com a I Liga têm a ver de certa forma com isso pois a possibilidade de obter receitas é incomparavelmente superior e ajuda a mascarar uma realidade que alguns clubes teimam em não aceitar. É por isso que a luta em vários tabuleiros é tão intensa e os esquemas a engendrar revelam alguma imaginação no desespero. Só que, enquanto tudo isso decorre, há uma verdade desportiva que é remetida para as calendas, pois a competição é ferida de morte quando alguns fazem sacrifícios para respeitar as regras e os compromissos e outros, à revelia das regras e do bom senso, prosseguem a sua via aventureirista de fuga para a frente desvirtuando as regras do jogo. É tempo da Liga e da Federação serem inflexíveis neste campo. E se tiver que acontecer que algum clube com história não revele as condições mínimas para competir, há que ter a coragem de não hesitar por mais que isso custe. Ao longo dos tempos quantos clubes importantes já desapareceram da ribalta? Foi por isso que deixou de haver futebol?








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