Ponto Vermelho
Desculpabilização: uma palavra complexa…
31 de Maio de 2015
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1. Consoante as cores das camisolas, o posicionamento anti ou os interesses que se alinham, as actuações dos árbitros são ignoradas ou avaliadas através de interpretações divergentes e na maior parte dos casos antagónicas. Até, compreensivelmente por alguns ex-árbitros, o que revela um tema sempre na crista da onda e que muito dificilmente gera consensos. O que prova não só a complexidade da profissão, mas de igual modo as paixões que gera ou os interesses que representa. Utilizar o equilíbrio e o bom senso nesta problemática seria o ideal, mas todos sabemos que o tema estará sempre longe de conseguir esse desiderato.

2. Partindo do princípio saudável e eticamente correcto de que os árbitros (pelo menos a grande maioria) actuam numa base isenta e independente sejam quais forem as equipas que estejam envolvidas, os erros e as imprecisões que os acompanham ao longo dos desafios seriam, por via disso, aceites com maior facilidade mesmo que delas se discordasse. Infelizmente, o passado histórico dá-nos pano e lastro para as mais diversas interpretações, e por isso, de mente aberta e transparente, não nos podemos esquecer dos continuados prejuízos sofridos pelo Benfica, demasiado evidentes para serem aceites como simples coincidências. Com maior profusão antes do famigerado 'Apito Dourado', e de forma mais cirúrgica depois dele. Relembrar isto é um imperativo de consciência e de lealdade à causa da verdade desportiva.

3. Não podemos, como é evidente, estar sempre a repisar o passado apesar de ele estar bem vivo na nossa memória. Mas devemos tê-lo presente sobretudo se isso ajudar a evitar novos reacendimentos, conhecida que é a volatilidade do fenómeno. Embora estejamos de algum modo perante uma nova conjuntura onde o escrutínio e a escalpelização de cada lance ou jogada constitua um tema obrigatório semanal, a época que está prestes a findar voltou a ser pródiga em acontecimentos onde não raramente as equipas de arbitragem foram fustigadas com críticas oriundas da central intoxicadora habitual.

4. O editor do diário Record Sérgio Krithinas abordava ontem, a propósito do golo anulado a Jonas contra o Marítimo na última jornada, uma questão interessante e que merece análise e reflexão. Refere, a propósito, que não ficaram a pairar dúvidas sobre a legalidade da jogada e da posição do avançado encarnado e que a actuação do árbitro-auxiliar foi errada. Mas, acrescenta, ser manifestamente injusto atribuir a responsabilidade maior ao fiscal-de-linha por Jonas não ter vencido o troféu de melhor marcador, porquanto o mesmo dispôs de mais oportunidades nesse desafio para o alcançar. E aí falhou tal como o bandeirinha Luís Ramos, logo não faz sentido estar a condenar este como principal actor responsável pelo fracasso do jogador benfiquista.

5. Interessante este ponto-de-vista do qual discordamos. Em termos meramente teóricos diríamos mesmo líricos, é possível situar as coisas no mesmo plano de igualdade. Mas na prática é desajustado compará-las. Desde logo porque as responsabilidades são diametralmente opostas; aos jogadores admite-se que falhem (acontece em todos os jogos seja quais for a posição que ocupem), mas aos árbitros não, porque um juíz não pode nem deve estar afectado pela adrenalina do jogo em si, é suposto ser frio, infalível e sábio nas suas decisões de modo a ser praticada uma justiça independente e salomónica.

6. Abstraindo-nos dos aspectos tenebrosos que constam da História recente da arbitragem portuguesa e centrando-nos no presente, há um esforço compreensível de todas as mentes bem intencionadas ao reconhecerem que o árbitro é um ser humano, logo falível nas decisões que, ao contrário de outros seus colegas noutros sectores, não tem hipótese de reflectir e ponderar, mas é forçado a decidir em fracções de segundo, lances por vezes de grande complexidade e de complicado julgamento. Todavia, se isso é aceitável e pacífico em muitos lances onde até as recorrentes e exaustivas imagens televisivas não consegue esclarecer cabalmente as dúvidas, outros há que são manifestamente incompreensíveis dado que não oferecem quaisquer objecções aos espectadores nos estádios na avaliação que fazem em simultâneo com os julgadores e decisores arbitrais.

7. Para não irmos mais atrás, falaremos apenas dos jogos do Benfica nas duas últimas jornadas em que foram sonegados dois golos aos encarnados com importantes implicações ainda que com fim diferente. Em Guimarães Maxi Pereira não está fora-de-jogo no momento que recebe a bola e a endossa a Salvio para o remate fatal, e na Luz é muito mais evidente que Jonas também não está deslocado pois durante toda a jogada está sempre atrás da linha da bola. Se no 1.º caso se aceita de alguma forma o julgamento do fiscal-de-linha, no segundo, por ter sido tão claro é incompreensível e estapafúrdia a decisão que acabou por ter implicações sérias. Afinal, o que tem isso a ver com o facto de Jonas ter falhado mais duas ocasiões flagrantes de golo? E se elas não tivessem existido que tergiversações é que se arranjariam?






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