Ponto Vermelho
Finito
4 de Junho de 2015
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As notícias que têm inundado a actualidade confirmando que o treinador Jorge Jesus decidiu aceitar a proposta leonina para se transferir para Alvalade e ocupar o lugar que era do jovem Marco Silva teve, naturalmente, um amplo eco e tem ocupado a parte do leão de todos os noticiários sejam eles radiofónicos ou televisivos. Para além, como é óbvio, da imprensa escrita. Pelos contornos que se adivinham e pelo facto de estar envolvido o nome do Benfica, será previsível que nos próximos dias e semanas não se fale de outra coisa. Em anos recentes era frequente ouvir-se falar de roubos de jogadores alegadamente perpetrados pelo FC Porto, agora ir-se-á ouvir dizer que o Sporting roubou o treinador ao seu eterno rival.

É cedo, muito cedo para se poder avaliar com precisão os motivos que ajudaram a este desenlace que aliás já se vinha pressentindo. Provavelmente nunca se chegará a saber com exactidão. Mas os sinais e as atitudes comportamentais de Jorge Jesus que nos últimos tempos já vinha denotando uma apatia estranha que não se coadunava com a sua personalidade extrovertida, faziam crer que algo de anormal se passava. De resto, isso foi bem visível após a conquista do bi-campeonato e da própria Taça da Liga. E quando questionado pela sua atitude pouco expansiva, Jesus transmitiu uma resposta mal amanhada que naturalmente não convenceu ninguém.

Muito se tem discutido sobre os méritos de Jorge Jesus especialmente nesta última fase da vida encarnada. Ninguém sério e de boa fé os pode negar. Mas como por diversas vezes sublinhámos tal seria inviável se, porventura, o Benfica não dispusesse de uma estrutura sólida, estruturada e organizada. Logo, havendo maior mérito de um ou de outro e em particular do presidente e do treinador, é justo que reconheçamos que sem o envolvimento empenhado de toda a estrutura Jesus ou qualquer outro técnico, por mais trabalhador e competente que fosse, por certo não atingiria o sucesso que registou na fase derradeira.

Porque temos boa memória, não esquecemos o que muitos diziam de Jesus quando o mesmo aportou ao Benfica, em que tudo servia para denegrir o treinador e infelizmente o ser humano. É certo que Jesus, um self-made-man, só conseguiu atingir a ribalta aos 54 anos, precisamente a partir do momento em que assinou pelo Benfica. Os encarnados deram-lhe condições desportivas, estabilidade, prestígio e um ordenado principesco para a realidade portuguesa. E foi a partir daí que passou a ser conhecido na Europa e em todo o globo, situação só possível por treinar um dos maiores clubes do Mundo. Assim sendo não faz sentido a discussão que tem animado algumas tertúlias de quem mais deu – se Jesus, se o Benfica.

Fruto das condições que lhe foram oferecidas e como é óbvio do seu mérito e da sua capacidade de trabalho, na época de estreia Jorge Jesus levou o Benfica à conquista do campeonato 5 temporadas após Trapattoni o ter feito. Mas nas épocas seguintes a situação alterou-se radicalmente, pois se na época seguinte surgiu um FC Porto de grande dinâmica, nas outras que se seguiram o campeonato foi perdido a poucas jornadas do fim ainda que numa envolvendo erros flagrantes de arbitragem. Todavia, os pontos de avanço que o Benfica disfrutava teriam que ter salvaguardado esses imponderáveis muito em voga no futebol sobretudo no português. Mas pela mesma lógica que defendémos acima, neste caso o demérito também tem que ser distribuido por todos ainda que em diferentes graus.

Um dos factores que sempre nos intrigaram foi a descaracterização do futebol apresentado sempre que o Benfica tinha que enfrentar equipas da mesma dimensão ou superior. Na verdade, aquele Benfica dominador e empolgante que era a sua principal matriz, reduzia-se e banalizava-se ao ponto da equipa ter sofrido vários e importantes dissabores, nomeadamente nas provas europeias onde a Liga dos Campeões foi quase sempre uma miragem. Cremos que pela obsessão do título interno que obrigou a outro tipo de opção. No entanto, no contraponto, há a registar sob o seu comando a ida a duas finais da Liga Europa ingloriamente perdidas pois em ambas o Benfica foi superior. Os dados disponíveis requerem maior desenvolvimento e certezas mas se quiséssemos ser maldizentes, diríamos que pelos vistos o factor económico voltou de novo a ter peso na decisão. E, paralelamente, a estranheza por ver jorrar petróleo em Alvalade… Voltaremos ao assunto.








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