Ponto Vermelho
O estilhaçar das coerências
14 de Junho de 2015
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É curioso constatar como muitos se entretêm a tentar descobrir falhas de discurso de alguns protagonistas mas quando isso acontece, mais cedo ou mais tarde, nem sempre lhe atribuem a relevância correspondente à insistência com que procuraram (e esperaram) por essa manifestação. E como a memória dos humanos é recorrentemente exígua, o dizer algumas vezes de forma convicta o contrário, passa despercebido por entre os intervalos da chuva. No outro extremo há os que apercebendo-se e registando o acontecimento sorriem pois isso parece uma situação cujo desfecho já aguardariam. Daí a sua atitude de bonomia e até de indiferença.

O Futebol, por ser um veículo que navega sempre na crista da onda onde o sentimento de paixão é mais pronunciado e afirmativo, costuma servir de exemplo para aquilo que se convencionou chamar de incoerência, embora alguns desses intérpretes possam afirmar que não foram eles que mudaram mas as circunstâncias que os rodearam, que os forçou a dizer frases e a tomar decisões contraditórias e em total dessintonia com o registado tempo antes. Mas isso poder-se-ia aplicar de igual modo na política e em todos os sectores. Não se estranha por isso, apenas às vezes se lamenta…

Ainda sobre a ida de Jesus para Alvalade ficam algumas frases e ideias que no momento em que foram proferidas tinham todo o aspecto de serem estruturais. Por exemplo, disse o futuro treinador leonino numa frase marcante que no ’Benfica tinha atingido o top nacional’ e que para progredir na carreira só num clube estrangeiro de nomeada' que lhe desse, à partida, essa garantia. Por ser demasiado rebuscada e banal nem vamos referir a de ’passar de cavalo para burro’. Como se está a ver, as frases e vozes são levadas pelo vento algures para parte incerta…

Do ponto de vista estrictamente pessoal, o câmbio do treinador ou de um jogador em Portugal de um rival directamente para o outro deverá ser maduramente ponderado e avaliado dado que isso pode implicar consequências sérias, agravadas sobretudo se essa passagem resultar de um processo em que está subjacente, de alguma forma, o conflito por mais que possa parecer irrelevante. Diz-nos a história que, entre os eternos rivais no capítulo de treinadores só nos longínquos anos 40 isso aconteceu. Todavia, no caso de jogadores isso já é mais comum pois ao longo dos tempos observámos deslocações nos dois sentidos com diferentes reacções dos adeptos em função do modo como isso aconteceu.

Artur Correia foi um dos exemplos cuja transferência para Alvalade foi calma e transparente e, apesar do seu profissionalismo e rigor na defesa da camisola que então envergou, sempre que se deslocava à Luz era bem recebido. Porquê? Porque resultou de um processo normal em que o Benfica, por uma verba irrisória, permitiu que assinasse pelo Sporting. Já no caso de Dito e Rui Águas (na circunstância para o FC Porto e acabando este último por regressar à Luz – a nosso ver mal- ) e de Pacheco e Paulo Sousa, as suas atitudes não respeitaram as mais elementares regras de conduta ética pelo que, como tal, assim devem ser apreciadas.

Temos então que perante as inevitáveis paixões associadas e ainda que lhe assista todo o direito de o fazer, um profissional quando se lhe depara esta situação deve, ao menos, parar para pensar. Porque se não o fizer e agir por impulso ou por qualquer outra razão a começar pela financeira, arrisca-se a ter vida difícil, justamente porque na interpretação de uma boa parte dos adeptos, a leitura que eventualmente fazem é a de que se tratou de uma traição. E isso é naturalmente imperdoável futebolisticamente falando.

Na sequência deste último episódio, o mediático adepto benfiquista Ricardo Araújo Pereira aduziu considerações que, em seu entender, se perfilam como um erro histórico da parte da Direcção encarnada ao deixar partir Jorge Jesus. É um ponto de vista como outro qualquer e que só o tempo confirmará, ou não. Mas chamar à colação a saída de João Pinto é que se nos afigura desajustada, porque o que aconteceu é que o atleta benfiquista foi corrido pelo então presidente João Vale e Azevedo. A reacção de alguns acéfalos não serve de exemplo e de medidor da temperatura da grande maioria dos adeptos encarnados. Importa pois que cada profissional tenha isso sempre bem presente. Queremos acreditar que Jorge Jesus ponderou o assunto devidamente. Como tal, não há que estranhar as reacções; positivas e negativas…






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