Ponto Vermelho
As expectativas sobre um novo ciclo
18 de Junho de 2015
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Voltemos, por ora, ao princípio do século. O Benfica atravessava um dos piores momentos da sua então quase secular existência onde a palavra de ordem era poder corresponder aos gigantescos desafios que se colocavam, como seja recuperar o clube em todas as vertentes, restituir a credibilidade e restaurar a hegemonia desportiva já perdida para o FC Porto. Embora para uma boa parte dos adeptos o grande desiderato fosse apenas ganhar no futebol, o bom senso e os obrigatórios e saudáveis princípios de gestão apontavam para o equilíbrio e para a obrigatória recuperação económica e financeira, sem a qual o Benfica não poderia alcançar os objectivos.

Estabelecidas prioridades, o futebol continuou como sempre a merecer a atenção de todos. Mas devido às opções e à exiguidade de meios teve que aguardar pelas oportunidades para se ir tornando mais competitivo. Ainda assim, numa época atípica como a de 2004/2005 foi atingida a vitória no campeonato sem que isso, ao invés do que muitos pensaram na altura, significasse uma recuperação sólida e real na ocupação do espaço que por direito pertence ao Benfica, mas sim um êxito pontual e descontextualizado, dado que por essa altura os encarnados ainda não estavam preparados para concentrar todas as atenções no futebol. Faltava concluir a empreitada de estabilizar o Benfica e devolver-lhe o seu lugar no xadrez desportivo nacional com tudo o que isso implica.

Foi por isso, como alguns reconheceram, um êxito algo efémero, embora demonstrando que esse objectivo teria que ser atacado em força logo que estivessem reunidas as condições, pois o seu glorioso passado assim o exigia. Para além do alargado leque de vicissitudes próprias, o Sistema estava então no auge o que criava dificuldades adicionais de monta. Haveria pois que ir trabalhando e melhorando a organização por forma a reduzir as asssimetrias, na convicção de que mais tarde ou mais cedo haveria de chegar o momento. E assim aconteceu.

Com a contratação de Jorge Jesus e com o plantel colocado à sua disposição, o Benfica reassumiu o seu papel ainda que de imediato se tenha ficado pelo primeiro ano. Mas foi implantado um modelo que já tinha começado a ser experimentado pelo seu rival nortenho que assenta na contratação de jovens jogadores promissores para serem trabalhados, potenciados e vendidos com significativas mais valias. Como tudo, os modelos rentáveis tendem a esgotar-se no tempo até porque, entretanto, já se ia falando em legislação anti-fundos um dos principais suportes dessa estratégia aquisitiva. E aí houve que repensar o tema e redefinir tarefas sob pena de poder vir a haver aumento de riscos.

Porque a Formação começou a dar frutos, a nova estratégia apontou para uma maior aposta nesse sector por razões óbvias. E isso levou a novas apostas porque como foi notório o antigo técnico nunca se mostrou entusiasta, estando mais virado para jogadores que lhe pudessem garantir respostas no curto prazo. É uma filosofia que não se enquadrava nas novas directrizes traçadas e daí o desenlace que seria absolutamente normal se tivessem sido cumpridas as regras éticas e de urbanidade. Mas isso parece ser um assunto encerrado em definitivo, pelo que não se justifica o cenário que dá conta da Luz estar em polvorosa. Se é para vender jornais ou aumentar audiências televisivas então já se percebe…

É nesse enquadramento que surge Rui Vitória uma aposta da Direcção de Luís Filipe Vieira, mas foi curioso o movimento que se gerou nalguns sectores de adeptos de apoio a Marco Silva, talvez influenciados moralmente pelo arrastado processo que culminou com o seu despedimento que envergonhou a esmagadora maioria do universo leonino pois onde deveria ter acontecido lhaneza sucedeu o contrário, depois do fogoso presidente leonino ter mandado avançar peões de brega que não tiveram pejo em desempenhar o desprezível papel de delatores de falsidades.

É real que Marco Silva no seu ainda curto desempenho já teve oportunidade de demonstrar competência. Logo poderia ser, em teoria, um bom candidato. No entanto, se o impulso nos poderia eventualmente arrastar para a sua opção, a conjuntura futebolística encarnada tem vindo a evoluir e há que olhar para ela com a atenção focada nas várias vertentes. Assim sendo, mais do que escolher um treinador (por mais conceituado e experiente que possa ser), há que analisar o modelo no seu todo e a possibilidade do treinador se vir a encaixar, neste momento, no projecto em curso.

Não foi por acaso que o Benfica sobretudo nos últimos anos foi trabalhando e afinando o projecto anunciado por mais do que uma vez, cuja implementação foi sendo prorrogada por o anterior técnico ter outras valências que não se conjugavam com o seu arranque. Não estão em causa competências cujos resultados ficam à consideração de cada um, mas sim as características técnicas e humanas tidas como determinantes. Ganhar é o objectivo de sempre mas sem consolidar um projecto que tenha em conta a conjuntura e nela viva e se adapte, pode criar limitações insustentáveis nas opções futuras.

Sendo que continuar a adiar não era solução, foi tomada a decisão que, em teoria, corresponde aos horizontes traçados. Se vai ou não ter êxito e se este se vai ou não consolidar é uma questão diferente, face à aleatoriedade que está sempre indexada. Rui Vitória terá sido escolhido por concentrar em si as características tidas como fundamentais para o ano zero da implementação do projecto. Foi apresentado quando assim foi entendido e não quando alguns queriam que fosse. O seu perfil sereno contrasta com o passado recente e, talvez por isso, não terá despertado entusiasmo desmedido numa franja de adeptos habituada a tipos de postura muito mais incisivas. A ver vamos!


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