Ponto Vermelho
Sinais dos tempos
24 de Junho de 2015
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Entretidos com os afazeres e preocupações diárias, uns quantos mal têm dado conta da evolução que se tem registado no desporto-rei. Se nos déssemos ao trabalho de realizar uma retrospectiva breve, veríamos com assumido desagrado que o mundo futebolístico registou avanços mas regrediu em muitos aspectos considerados fundamentais para o equilíbrio, confiança e tranquilidade dos adeptos. Hoje em dia, mesmo nos grandes clubes portugueses as expectativas são preocupantes porque apesar do portão das transferências estar aberto de Julho a princípios de Setembro e a janela durante o mês de Janeiro, o forrobodó mantêm-se vivo e activo durante todo o ano. Pelo menos a nível da imprensa…

A estabilidade e o conservadorismo do passado deram lugar a uma roda viva de possíveis negócios de compra e venda potenciados por empresários, agentes, intermediários, dirigentes, familiares de jogadores e demais interessados, onde os nossos clubes se posicionam como placas giratórias que geram e participam em inúmeros negócios, à luz não só de necessidades financeiras prementes mas também de oportunidades que estão sempre a surgir fruto do mercado português ser apetecível e acessível a todas as bolsas endinheiradas. Que têm vindo a aumentar em clubes dos vários países europeus e dos mercados emergentes, na proporção directa do enfraquecimento dos nossos clubes.

Para memória futura convém recordar o Benfica dos últimos seis anos, muito embora a última temporada já tenha ficado assinalada com alguma mudança de agulhas ainda que investimentos significativos no plantel principal tenham continuado. Nesse período em que se registaram 3 vitórias na prova maior do nosso calendário futebolístico a par de Taças da Liga e de Portugal e sendo ainda de assinalar duas presenças na final da Liga Europa, o Benfica foi severamente criticado por alguns opinadores por estar a gastar demasiado (ainda que tenha registado profícuas contrapartidas) e consequentemente por estar a aumentar o nível do seu endividamento.

Ao invés, enquanto o FC Porto com o mesmo modelo de negócio passava despercebido e não constituia motivo de atenção nesse particular, o Sporting era tido e apresentado como o campeão do Mundo das reestruturações financeiras em que, através de algum malabarismo e da aplicação da teoria do desaparecimento miraculoso do passivo conseguia, não só empurrar com a barriga o monstruoso passivo como, até, limpar dívidas transformando-as por obra e graça do divino em aumentos de capital. Um verdadeiro prodígio técnico-financeiro a que tiramos o chapéu… Em adição, os elogios não pararam assinalando a coragem e a visão de colocar travões às quatro rodas e à cessação de investimentos significativos no plantel principal de futebol.

Pois bem, a partir do momento em que o Benfica anunciou e se começou a abster de investimentos de maior dimensão que o tinham caracterizado ao longo dos últimos 6 anos (embora se voltem a relembrar as mais valias), começámos a observar toda uma casta de puristas que, com a larga visão que sempre os caracterizou e cujo talento está a ser desperdiçado (que jeito daria para a resolução da questão incomensurável da dívida pública portuguesa…), se atiraram como gato a bofe ao Benfica pelo alegado desinvestimento, surgindo impantes e portadores de toda a verdade do Universo a afirmar; nós, até já o tínhamos previsto… Atravessando o País e os clubes uma conjuntura difícil o que obriga a uma maior ponderação não será, todavia, o anúncio de um apocalipse prematuro?

Na época anterior, em verdadeiro contraciclo económico, já o FC Porto tinha descarrilado ao investir em grande escala aumentando o nível do seu endividamento. Essa sua opção de fuga para frente apenas mereceu reparos en passant dos mesmos bitaiteiros que se apressaram a justificá-la com a necessidade urgente e inadiável de impedir o Benfica de atingir o bi-campeonato. Uma verdadeira delícia deveras peculiar do seu típico linguarejar…

Na temporada que se vai iniciar, paradoxo dos paradoxos, o tão elogiado Sporting que pouco tempo tinha feito milagres de gestão mas curiosamente não sabia que orçamento iria ter para a próxima época, resolveu abandonar a magreza e a austeridade orçamental e, num golpe de mágica, contratou um treinador por um preço à europeu rico e próspero que certamente vai exigir um plantel à altura dos seus hábitos e pergaminhos. De novo em contraciclo e contra todas as expectativas avisadas e sensatas. Um problema a resolver (ou não) pelo génio de gestão que Alvalade e os adeptos tiveram a suprema sorte de eleger, mas que promete uma sucessão de desenvolvimentos interessante. Por curiosidade, os mesmos palradores, surgiram de novo, centrando-se apenas e só no folclore da aquisição roubada ao seu vizinho. E agora as preocupações com o rigor orçamental deixaram de interessar?






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