Ponto Vermelho
A lógica da inversão
10 de Agosto de 2015
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Temos que convir que com as saudades dos jogos a sério a apertar, o Sporting-Benfica de ontem à noite no Estádio do Algarve para a disputa da Supertaça Cândido de Oliveira teve um ampla campanha mediática. Essencialmente pelos fait-divers subjacentes a que muitos prestam atenção em demasia. Afinal o que estava em jogo era apenas mais um derby lisboeta no quente e soalheiro Algarve pejado de turistas e veraneantes, para o qual foi fabricado um contexto muito especial. E como o Mundo se move pelo mediatismo, o sucesso da iniciativa estava garantido à partida fosse qual fosse o resultado e o vencedor do mesmo.

Em termos pessoais nunca concedemos grande destaque a esta prova. Não o dizemos de forma nenhuma para a desvalorizar (como seria isso possível se ela homenageia uma das grandes figuras portuguesas de sempre do desporto e não só?), mas porque estamos a falar de títulos disputados num só jogo e como tal não é, como qualquer outra, uma prova de regularidade pelo que o grau de aleatoriedade é infinitamente maior. Não foi, todavia, o caso do jogo de ontem. Por último, acresce ainda que se trata de um jogo que define um título… da temporada passada…

A despeito de um derby poder ser sempre uma caixinha de surpresas, a verdade é que o sucedido na pré-época tinha fornecido indícios seguros de que os pratos da balança estavam, desta vez, bastante desequilibrados. De um lado um Benfica com alterações substanciais de filosofia em relação ao passado recente com um treinador a dar os primeiros passos na mais alta roda do futebol português, e do outro um Sporting de súbito empertigado e com o importantíssimo acesso à Liga dos Campeões já perfilado no horizonte o que o obrigou a horas extras para acelerar o processo.

O treinador do Benfica ainda a avaliar o plantel e inventariar as suas necessidades, foi confrontado com uma deslocação transatlântica a vários países da América do Norte que implicou o desvio da preparação normal nesta altura para os jogos (ainda por cima contra equipas de grande dimensão), pelo que os treinos relativos à aferição dos pormenores tiveram que ficar adiados para melhor oportunidade. A detecção de lacunas ou a eventual necessidade de reforços tiveram por isso que aguardar pela sua conclusão o que naturalmente atrasou todo o processo. Sem esquecer também o intenso desgaste a que foram sujeitos, com as inerentes diferenças climáticas e de fuso horário. Não se trata de lamentar ou de inventar desculpas, mas pura e simplesmente constatar factos incontroversos.

Por tudo isso e olhando o jogo com o indispensável pragmatismo, mesmo considerando a imprevisibilidade que um derby sempre acarreta, não se afigurava crível que, neste momento, a equipa do Benfica estivesse nas melhores condições tácticas, técnicas, físicas e até psicológicas para enfrentar um adversário muito mais avançado na preparação nas suas multiplas vertentes. O evoluir do jogo permitiu confirmar essa ideia com uma particularidade curiosa; é que o que vimos ontem, fez-nos lembrar muitos dos jogos do Benfica quando Jesus era treinador e disputava jogos com equipas de igual ou superior dimensão, em que invariavelmente dava largas à sua fértil imaginação e se encolhia em demasia, esquecendo-se de súbito que não era propriamente um treinador de equipa pequena… E aí aconteceu com as épocas em pleno andamento e não no seu início em que quase sempre as equipas se encontram em diferentes patamares por razões circunstanciais.

Sendo a vitória leonina inquestionável e justificada a onda de euforia das suas cores, considerando os detalhes da conjuntura, temos que os males e os terríveis cataclismos que se anunciam pelos habituais artistas que rapidamente mudam as agulhas consoante o soprar do vento, são temporões. Idem para as desgraças anunciadas. É certo que nenhum benfiquista se poderá sentir satisfeito pelo que nos foi dado presenciar no palco do Estádio do Algarve com os jogadores apáticos, abúlicos e sem capacidade de pressão e de reacção fazendo até pensar os mais distraídos que o Sporting era uma equipa de outra dimensão… Calma e ponderação são mais do que tudo necessárias neste momento uma vez que, finalmente, o Benfica vai entrar na normalidade… Uma palavra final de imenso apreço por Jonas; calculamos como terá sido difícil não responder à letra a mais uma provocação onde o basismo esteve uma vez mais presente…








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