Ponto Vermelho
Nacionalismos
3 de Fevereiro de 2013
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Em mais um estudo promovido pelo Sindicato de Jogadores liderado por Joaquim Evangelista, uma das conclusões foi a de que o Benfica foi a equipa que menos portugueses utilizou na 1ª volta da Liga. Não vale estar a escamotear uma verdade indesmentível dado que por motivos muito variados, a estrutura directiva dos encarnados tem optado por outras soluções que tendem a perseguir um duplo objectivo: assegurar jovens estrangeiros dotados de grande potencial, torná-los competitivos desportivamente e, após isso,vendê-los para mercados mais endinheirados que propiciem um bom retorno financeiro e uma satisfação das necessidades correntes da sua tesouraria e do equilíbrio das contas da sua SAD. Enquanto que no Benfica essa prática é passível de críticas distorcidas, no FC Porto que deu o pontapé de saída nesse procedimento as suas acções têm merecido os maiores encómios. Não o dizemos por qualquer razão em especial, mas apenas e só para situar a realidade na sua exacta proporção.

Importa, antes do mais, não sermos hipócritas na abordagem deste tema que de tempos a tempos atinge as luzes da ribalta com súbitos ataques de nacionalismo exacerbado num país que desde os primórdios da sua história novecentista se habituou a importar tudo ou quase tudo (pena que não possamos importar também governantes estrangeiros apesar de eles já nos estarem a governar por interpostas pessoas). Temos que ser lúcidos e saber distinguir o que, a cada momento é o possível e não o desejável, para que consigamos atingir objectivos que de outra forma nunca conseguiremos. É uma questão de analisarmos toda a estrutura e percebermos os porquês e a razão para o que está a acontecer.

Se perguntarmos aos adeptos dos clubes se gostariam de ver a sua equipa actuar só com portugueses provavelmente encontraríamos unanimidade. Mas a conjuntura alterou-se de uma forma inapelável e admitir isso é apenas praticar uma acção lírica e de todo inconsequente. Pese embora toda a paixão histórica que nutrimos pelo futebol, deixou há muito de haver hipóteses de num pequeno País que perdeu as principais referências que tendencialmente nos chegavam da África lusófona, de poder perseguir esse desiderato, para mais quando o nosso atraso sistémico nos impede de poder minimamente competir com qualquer país no espaço onde estamos inseridos - o europeu.

Voltados desde sempre para a emigração e com essa solução a ser reforçada pelo actual ministro-primeiro o que levou a que cerca de 120.000 portugueses tivessem demandado a outras paragens no último ano evitando assim que o desemprego fosse maior, no campo futebolístico qualquer produto saído da formação de qualquer clube luso é objectivamente um alvo apetecível para os grandes clubes europeus que deixaram de se preocupar com a formação pois alguém está a formar por eles. Depois é tudo uma questão de dinheiro que não escasseia nesses países e que alimenta o entusiasmo dos jovens futebolistas portugueses que passam a olhar o estrangeiro como uma saída inevitável para a sua vida profissional, potenciados por agentes bem colocados e que vêem aí uma excelente oportunidade para engrossar o seu já vasto pecúlio.

É certo que nos últimos anos surgiu a hipótese dos nossos principais clubes voltarem a apostar nos escalões de formação sobretudo a partir da última época com a possibilidade das equipas B passarem a poder competir na II Liga sem dúvida um escalão competitivo. Mas como todos sabemos, nem sempre as safras dão bom vinho e mesmo quando dão, é necessário algum tempo até esses talentos estarem maduros e em condições de competirem com as exigências que derivam da sua utilização no plantel principal. Se observarmos, passou a ser comum numa boa parte dos jogos existirem olheiros estrangeiros dos principais clubes, uma profissão que está a ser cada vez mais um sucesso. E isso, significa que as possibilidades dos jovens portugueses com potencial se transferirem para o estrangeiro é cada vez maior e sem que os clubes tenham grandes hipóteses de o impedir pelos motivos que são do domínio público.

Como se pode então transformar os desejos em realidades de ter cada vez mais jogadores portugueses nas nossas equipas? Não será fácil e atrevemo-nos a dizer que nesta conjuntura é manifestamente impossível. Até porque as principais equipas terão que se apresentar competitivas, e isso força-as a ter de procurar em mercados ainda de alguma forma acessíveis, adquirir jogadores a preços ao seu alcance, potenciá-los, e depois seguirem o seu inevitável caminho de se transferirem para outros campeonatos. Não vemos infelizmente que seja para já possível encontrar outras soluções, pelo que apenas poderemos continuar a constatar factos que não serão porventura do nosso agrado mas ultrapassam largamente a nossa vontade de cada vez termos mais jogadores portugueses. Nós que que fazemos gala de importar tudo! Porque é que no futebol teria de ser diferente? Não sejamos hipócritas e não atiremos poeira para os olhos dos outros…








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