Ponto Vermelho
A euforia da mistificação
5 de Fevereiro de 2013
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A folgada vitória do FC Porto em Guimarães contou obviamente com o reconhecimento da esmagadora maioria dos adeptos portugueses que aceitaram de ânimo leve não apenas a superioridade portista, como esta ter sido muito provavelmente a melhor exibição da equipa de Vitor Pereira desde que assumiu o comando técnico dos azuis e brancos. Como Miguel Sousa Tavares (MST) deixou entendido, os portistas encontraram uma maior motivação por irem defrontar um clube ex-amigo e ex-colaborador-subserviente do Benfica para lixarem o pobre e inocente FC Porto da tramóia resultante do Apito Dourado e, também, porque «na noite de sábado passado, o FCP lá voltou a ser recebido em Guimarães com um ódio que, extravasando das bancadas para o campo, mais uma vez apenas conseguiu produzir o efeito contrário ao pretendido (…)». O que demonstra que MST continua a não compreender a evolução dos tempos… Diga-se que de todo surpreende a forma desassombrada como se aceitou o ascendente portista, tão previsível quanto a vitória do Benfica em Braga e a (ultra)passagem incólume de um mês de Janeiro de alto risco ter sido alvo da crónica em tom desdenhoso dos nossos adversários. São, ao fim ao cabo, formas diferentes de estar na vida e de pensar o desporto, e ainda bem que assim é... pela parte que nos toca.

Ganhando o melhor - o que apesar de já haver por aí alguma confusão importa sublinhar que não implica recurso a expedientes -, glória aos vencedores e honra aos vencidos. O problema principal reside em certas mentalidades que apesar de lidarem diariamente com a civilização insistem em se manter desactualizadas e abertas a subscrever o exclusivismo do chico-espertismo, o que conduz a que essa inteligência saloia permita aceitar com excessiva leviandade estratégias conspurcadas e jogos de bastidores como parte integrante do espectáculo que se pretendia limpo. Ainda que se trate de um desejo pelos vistos manifestamente ambicioso, sublinhamos aqui mais uma vez que seria pertinente almejar o tal salto qualitativo. Caso contrário, continuarão a agrilhoar a cultura portista a uma teimosa pequenez, e como a obsessão em subjugar o Benfica é superior à vontade de crescer, à medida que o Sistema for sendo desmontado a infelicidade paulatinamente apoderar-se-á de todos. E com isso advém o desespero.

Pertinente seria pois intelligentsias portistas do jaez de MST mudarem a cassete, abrindo mão de décadas áureas em que qualquer patranhada era tomada como um rasgo genial e/ou uma verdade insofismável. Não o fazendo e persistindo no erro, para além das razões já sublinhadas, entregam-se sistematicamente ao ridículo e contribuem para o status quo em que se encontra a mentalidade portista. Naturalmente, ainda que continuemos a pedir de uma forma encarecida um upgrade como algo tão perto de atingir mas ao mesmo tempo tão longe de conseguir, aceitamos que a tarefa é de facto hercúlea para não dizer inatingível. Isto porque não renegando o que tem sido a liderança de Pinto da Costa nos últimos 30 anos, o crescimento do FC Porto alavancou-se essencialmente no desejo de suplantar o Benfica. Se isso era uma intenção e um objectivo legítimos, já não é nem nunca será aceitável que recorrendo a mitos urbanos tenham implementado uma estratégia de golpada que evidentemente fez escola. Daí que não possamos estranhar como, de forma sistemática e recorrente, a cada feito portista (não importando como), MST e a entourage portista se debrucem sobre o Benfica, seja em crónicas, seja em cânticos que revelam à saciedade que não se conseguem libertar do estigma da insignificância e do complexo de inferioridade que sempre os acompanha.

Compreendendo-se a estratégia de desviar as atenções e concentrá-las no seu principal inimigo que veste de encarnado, o modus operandi e as contíguas práticas de submundo ficarão para sempre indelevelmente ligadas ao FC Porto e à sua história no desporto, motivo de sobra pelo qual terão natural dificuldade em reinventá-la. Mas, como tudo é possível para aquelas bandas, não nos admiraríamos que a tentassem adulterar como aliás fizeram com a sua data de fundação. Dispensar-se-ia pois a persistência com que os moçoilos e oficiosos da praça tentam envolver o rival nas nomeações do CA e que esta semana volta a ter novo episódio em função do Vitor Pereira-presidente ter cometido o pecado de nomear Duarte Gomes para jogos que continham adversários que na semana seguinte se deparariam com o Benfica, como se prescindiria obviamente de historietas quanto a um suposto aliciamento do Benfica a jogadores em vésperas de os defrontarem. E porquê? Porque os Cadorins e os Hilários, os Acácios e as cláusulas impeditivas, as doenças de Ukra de Sábado à noite e a ponta do icebergue que o Youtube retrata, está sim intrinsecamente ligada à história e ascenção do FC Porto que os portistas tanto aplaudem. Talvez se convergissem na ideia do «mini-Barça», aí sim era algo capaz de pegar. Regionalismo por regionalismo…

[Artigo Anexo: MST, jornal A Bola, 5 de Fevereiro de 2013]










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