Ponto Vermelho
Futebol robotorizado?
23 de Janeiro de 2016
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1. Mal de todos nós se nos deixássemos aprisionar por teses conservadoras em aspectos em que o progresso é inegável e tem tudo para nos oferecer boas soluções e melhores alternativas. Se por uma questão de princípio deveremos ser conservadores nos aspectos reconhecidamente bons e revolucionários em tudo o que é arcaico e mau, a humanidade na sua incessante luta pelo desenvolvimento e pelo progresso não pode ignorar as novas vertentes e os bons ventos que elas trazem. Mesmo que para isso tenham que ser sacrificadas algumas coisas, incluindo a estabilidade que como é óbvio a maior parte gosta de conservar, em particular quando defende os seus interesses.

2. Não podemos, por isso, fazer de conta que o Mundo não registou (e continua a registar) profundos avanços sejam eles tecnológicos ou de outra índole que têm revolucionado a própria vida humana, ao ponto de quem não acompanhar todos esses desenvolvimentos (nem sempre bons) correr o risco de ficar definitivamente para trás na sociedade actual. Porque quem tem papel determinante nesses avanços já nasce e cresce entranhado nesse novo mundo, são aqui e ali cometidos exageros porque é bom não esquecer que não se pode carregar no botão e extinguir de repente a fase de transição necessária e obrigatória por existirem ainda gerações desfasadas dessa nova realidade com peso acentuado na sociedade.

3. O futebol desde os primórdios, sempre esteve recheado de vicissitudes várias, a começar pela falibilidade dos seus diversos intervenientes, sejam eles jogadores, dirigentes, treinadores, árbitros, adeptos, etc. Cada qual na sua área específica de intervenção, mais ou menos importante, concorrendo todos para o produto final que todos reconhecemos como gerador de paixões que conduzem a que o cidadão amante da modalidade, aparte a sua profissão, condição social, credo religioso ou experiência de vida, se transforme quando assiste a um jogo de futebol, sobretudo se nele estiver envolvido o seu clube de coração.

4. Porque protagonizado por seres humanos, logo falíveis, os erros (cometidos por todos os protagonistas sem excepção) são, desde sempre, presença obrigatória em cada desafio que se dispute em qualquer parte do Globo. Como é evidente, são mais ou menos empolados em função da importância dos prélios, dos Clubes envolvidos e dos interesses que giram à sua volta. Lamenta-se que um jogador tenha uma falha comprometedora, critica-se o treinador por não ter acertado nas substituições, mas a terceira equipa – a da arbitragem –, é desancada sem dó nem piedade. Algumas vezes, com a lógica indesmentível da razão.

5. É um aspecto por demais complexo e para o qual concorrem razões de diversa ordem. Desde logo porque face aos interesses envolvidos e subjacentes, todos os truques são utilizados para tornar mais complicada a tarefa arbitral. E quando assim é a falibilidade do julgamento aumenta, ao mesmo tempo que a concorrência desleal das tv’s se efectua com o escrutínio exaustivo de cada lance mais duvidoso escassos segundos depois, despoletando a polémica quase imediata. Isso partindo do pressuposto natural que as equipas de arbitragem agem com independência e profissionalismo o que, como todos sabemos, não sempre foi assim como bem o ilustra o tenebroso passado de três décadas.

6. Temos que admitir que terão sido, em larga medida as peripécias desse passado (aliadas à nossa condição de latinos) que influenciaram a maneira de reagir dos intervenientes directos e em particular dos adeptos, porquanto nunca deixaram de associar o estado anterior aos erros do presente. Empolados como já vimos pelas inúmeras repetições televisivas dos lances um abuso que não deveria ser tolerado, pelo menos da forma como se tem processado. Há que partir do princípio que as equipas de arbitragem por melhor preparadas que estejam cometem erros de julgamento, por incompetência e pela pressão a que estão sujeitas, situação agravada pelas simulações de muitos jogadores industriados na cabine para o fazer.

7. Chegámos pois à possibilidade real de se aproveitar o avanço tecnológico para tentar melhorar a verdade do jogo. Como sempre, várias posições se confrontaram, com alguns a querer avançar demasiado, outros a usar a prudência como ponto de partida, e, finalmente, os mais conservadores que se opõem a (quase) tudo. É inegável que se pode e deve avançar nalgumas áreas. O olho do falcão já testado e utilizado é uma boa opção, mas mantemos reservas sobre o propalado vídeo-árbitro que segundo os seus entusiastas parece vir a resolver todos os males do futebol… Aparte uma eventual quebra de fluidez do próprio jogo, volta a ser a componente humana a ter um papel determinante na decisão final. E aí, tal como a equipa de arbitragem em campo, pode igualmente equivocar-se no julgamento. Ora é aqui que reside o busílis: Havendo uma permanente desconfiança em relação aos árbitros, como resolver essa questão?






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