Ponto Vermelho
Golpes de rins…
3 de Fevereiro de 2016
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É sempre interessante acompanhar a evolução do ser humano, as suas alegrias, as suas angústias e, sobretudo, a sua capacidade de adaptação à conjuntura do momento. Bastas vezes sem se dar conta, muitas de forma propositada e, algumas, para perseguir interesses que lhes são colocados na agenda. Todas estas situações e metamorfoses têm um ponto em comum: a prevista falta de memória dos destinatários. No futebol, dadas as constantes mutações que podem ter lugar semanalmente e pela força das emoções a ele associadas, algumas vezes somos levados a crer que podem acontecer factos e o seu contrário, sem que isso possa parecer contraditório aos olhos da turba…

O sucedido com Jorge Jesus no fim da sua 4.ª época no Benfica deveria constituir um forte sinal de aviso para a situação que se haveria de seguir. Também aí, todos estamos lembrados, o coro alto e ruidoso apontava para a sua não renovação. Sabemos o que aconteceu e aquilo que se configurava como uma saída com um saldo negativo e decepcionante, acabou por se transformar numa serenata de elogios que cedo esqueceu tudo o que ainda estava fresco… de negativo. E, de repente, o negro balanço deu lugar a um futuro risonho, e o toureiro prestes a ser colhido na arena, saiu em ombros aplaudido por uma plateia deslumbrada e, curiosamente, já cheia de saudades…

Como sempre a impaciência tomou conta de muitos espíritos inquietos. Os tais que se fossem decidir teriam conduzido a uma solução prematura, logo precipitada. Nem essa realidade incontroversa serviu de motivo de ponderação para o que se seguiria em que, face à conjuntura que se vivia, qualquer que fosse o treinador que ingressasse no Benfica iria deparar com obstáculos muito difíceis de ultrapassar. Tal como na anterior situação em que a posição da maioria acabou por se revelar errada, também aí a opção esteve longe de recolher unanimidade, provando-se que o universo benfiquista é muito heterogéneo e perseguidor de interesses imediatistas que nem sempre se revelam os mais adequados. Sem descurar os êxitos no imediato, importa estabelecer bases sólidas para que as vitórias sejam constantes e duradouras no futuro.

Muito provavelmente por isso e também fruto de uma pré-época com deficiente planeamento e muito perto do desastroso, os resultados foram desanimadores. E com eles forjaram-se perspectivas carregadas de núvens negras ainda mais potenciadas pelo calendário adverso e pelo contraponto registado no vizinho do lado. Foram tempos muito complicados em que como sempre acontece nessas circunstâncias, tudo é posto em causa a começar pelo trabalho que vinha sendo desenvolvido por um amplo leque de pessoas. Uma postura assumida quase com os mesmos contornos de duas épocas atrás, pelo que os mais avisados não estranharam pois apenas e só o desenrolar dos acontecimentos determinaria a evolução e o consequente balanço da época.

Neste momento, apesar de se ter registado uma nítida melhoria em quase todos os tabuleiros a começar pelos sintomas de optimismo que reinam nos benfiquistas, continua a ser prematuro tecer considerações mais arrojadas, porquanto a volatilidade do futebol aconselha a que sejamos prudentes. Seja como for e aparte o que venha a suceder doravante, é já possível comprovar que as análises e as previsões eram manifestamente precipitadas pois subjacente aos resultados está todo um conjunto de elementos que os poderão influenciar nos dois sentidos, pelo que, como tal, deveriam ter sido mais ponderados antes de alguma histeria que tomou conta dos muitos espíritos pouco dispostos a esperar…

Por outro lado, não deixa de ser curioso diríamos até irónico, os golpes de rins que uma boa parte dos paineleiros têm feito, convenhamos que com pouca mestria. Rui Vitória, a par de outros treinadores nacionais, em termos comunicacionais enquadra-se naquilo que do nosso ponto de vista deve ser um técnico do Benfica, muito embora isso possa não agradar a todos sugestionados pela postura anterior em que não nos revemos de todo. Foi criticado por isso como se a basófia resolvesse tudo, ou as eventuais afinações tácticas não devessem ser feitas nos treinos e no balneário. Agora, mantendo a mesma postura já comunica melhor, percebendo-se bem porquê… É todavia bom voltar a lembrar que em todas as situações conjunturais não há vencedores nem derrotados individuais, mas sim todo um conjunto de elementos concorrendo para um fim que nem sempre é o mais desejado…








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