Ponto Vermelho
Ter ou não ter estofo…
19 de Março de 2016
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1. Durante o consulado de Jesus no Benfica esteve quase sempre em cima da mesa a discussão sobre qual o papel das equipas portugueses na Liga dos Campeões e na Liga Europa. O argumento-base também defendido por alguns conhecidos jornalistas e comentadores da nossa praça futebolística, foi, por norma, o de que as nossas equipas não têm estaleca no binómio capacidade financeira vs. capacidade futebolística para ombrear com os poderosos emblemas que têm vindo a sobressair nos últimos anos na Europa rica do futebol. Alguns históricos e tradicionais, e outros cujos novos detentores aliados às generosas receitas televisivas obtidas os catapultaram para a ribalta.

2. Conjugado com isso tem ainda sobressaído o argumento de que a nossa Liga é pobrezinha e muito desequilibrada e os grandes jogadores são proibitivos para as nossas bolsas e não estão disponíveis para ingressarem num clube português ainda que de primeira grandeza. Este tipo de argumentação tem evidentemente alguma razão de ser por constituir uma evidência, desejo moral e material de promoção de jogadores, agentes e empresários a eles associados, mas não se esgota no fatalismo e no conformismo que parece ser a conclusão definitiva sobre tão candente e sensível matéria.

3. Seguindo essa linha de raciocínio lógico, a menor capacidade financeira reduz a possibilidade de aquisição de nomes sonantes e a formação de um plantel mais consistente e de cariz igualitário para fomentar a rivalidade interna e permitir um leque de opções mais variadas e consistentes para fazer face a todas as exigências. Como consequência desse handicap, há que fazer opções declaradas pelas provas internas (leia-se sobretudo o campeonato) porque aí, face às limitações, as possibilidades aumentam, tais como os prémios para a sua conquista… Para além de que para muitos, incluindo dirigentes e massa adepta, a prioridade das prioridades é sempre vencer o título. E se não há rabo para duas cadeiras como diria o saudoso Béla Guttmann, então têm que se fazer opções prévias…

4. Não oferece contestação dizer-se que Benfica, FC Porto e Sporting por força do seu passado são crónicos candidatos ao título caseiro, estejam mais ou menos fortes. Sempre foi assim e sempre assim será aparte os acidentes de percurso que possam sofrer nesta(s) ou naquela(s) temporada(s). Mas também é verdade que muito do prestígio que têm hoje foi granjeado nos palcos além fronteiras, nas provas europeias de clubes onde já venceram todas as provas em disputa. E no caso concreto, o Benfica enfileira, por exemplo, nos Clubes europeus com mais finais disputadas. O que quer significar obrigatoriamente alguma coisa.

5. Continuam a argumentar os defensores dessa tese conservadora e restrictiva que os tempos agora são outros e que quando se assiste a um jogo entre os maiores colossos actuais, a diferença competitiva é tal forma díspar que não concedem quaisquer veleidades aos nossos principais clubes. Também há aqui evidências mas não verdades absolutas. A história desmente-os, pois mau grado serem outros tempos, não cremos, que a distância futebolística entre o Barcelona ou o Real Madrid de há 55 anos para o Benfica fosse menos acentuada do que é hoje. E no entanto a história reza que os encarnados os venceram…

6. Convém recordar a propósito já nos novos tempos, o trajecto seguido por FC Porto, Benfica, Sporting e SC Braga, provando que apesar de todas as dificuldades e vicissitudes, é possível chegar longe e até mesmo vencer as provas, apesar do nível de dificuldade ter vindo gradualmente a aumentar. Na actualidade poderão partir como outsiders mas o seu dever e o seu objectivo é tentar chegar o mais longe possível na Europa por questões monetárias e de prestígio, e não assumir uma atitude de conformismo perante alegadas inevitabilidades. As vitórias reforçam sempre o aspecto anímico e esse disfarça um eventual cansaço devido à multiplicidade de jogos. Não há cenários perfeitos e por isso poderão vir a existir factores marginais que acabem por os influenciar negativamente. Mas esses não poderão servir de desculpa para atitudes de conformismo que nada têm com a nossa génese de povo que foi capaz de descobrir o Mundo!

P.S.: E o facto de ter calhado em sorte ao Benfica o Bayern de Munique, não muda rigorosamente nada!








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