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A fé de Fernando Santos
PASSADOS estes dias de justificada euforia e de orgulho pelo ceptro europeu, decanto, aqui, um acontecimento que em mim permanecerá. Como português e como católico. Refiro-me ao agradecimento que, premonitoriamente, Fernando Santos fez muito antes da final ganha. Num tempo em que não acreditar é mais fácil do que crer, num tempo em que a nova moda é o ateísmo relativista, num tempo em que tanta gente prefere o absurdo ao mistério, o material ao espiritual, o instante ao permanente, num tempo, enfim, em que expressar-se publicamente como católico e dar testemunho de fé quase exigem coragem, Fernando Santos disse-nos, de alma aberta e livre, que para um verdadeiro cristão não existe diferença entre o pensamento, o coração e a oração. Desta maneira: «Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida [...]. Por último [...) falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-Lhe esta conquista e agradecer-Lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome».
Fernando Santos não é um treinador católico, pois que católico não é nele um adjectivo, antes um substantivo. Por isso ele é treinador no trabalho e é católico na vida. Um homem que se deixa iluminar pela luz da fé, com a audácia da esperança e a fortaleza da generosidade, e que sabe que, sem Deus, nada é completo.
Aplicam-se-Ihe as palavras de Bento XVI, ditas em Portugal: «fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza». - Bagão Félix, jornal A Bola, 13 de Julho de 2016.

Santos, Ronaldo & associados
A Seleção Nacional é campeã da Europa de futebol porque tem uma identidade muito própria. Com Fernando Santos sabemos quem somos: uma equipa organizada e disciplinada, com sentido estratégico e talento coletivo. Depois, Fernando Santos é daqueles treinadores que conta com a estima, o respeito e a admiração dos seus jogadores - aliás, nunca vi Cristiano Ronaldo elogiar tanto um treinador como o faz com ele. Fernando Santos sabe de futebol - atente-se na sua visão no momentos das três substituições na final com a França, o que evidencia sabedoria - e sabe ser líder. Atente-se na sua gestão ao longo de todo o percurso que encerrou com o título europeu, confirmando aí que a nossa equipa tem um líder e tem um rumo, um líder que sabe transcender-se nos momentos mais difíceis - e como eles foram tantos durante toda esta nobre competição.

A Seleção Nacional chegou ao título europeu porque provou, em cada um dos seus jogos, que temos uma equipa segura. Uma equipa que entende o jogo de forma a que nada a surpreenda e que tem um treinador que tem a rara capacidade de preparar atletas que se lideram a si próprios nos momentos de alta pressão, como se viu ainda na final de domingo, e sobretudo depois da saída de Cristiano Ronaldo um líder natural, especialmente pela capacidade de contagiar os outros, mas também porque é um líder moral ao influenciar as atitudes dos seus colegas. Mas de Cristiano Ronaldo deve ainda dizer-se que é também o líder do espetáculo e do 'perfume' que, com os anos, se tornou também um líder de comportamentos. O que só lhe fica bem.

Nestes momentos de orgulho nacional, uma palavra para os outros 22 jogadores que souberam formar uma equipa de hábitos e intencionalidades, que souberam ser solidários e eficazes nas suas tarefas; e é por tudo isto e por nada disto que temos Seleção, uma Seleção que foi modelada por Fernando Santos e pensada por Fernando Gomes, que nos enche de orgulho, e isso é que é importante, num país que bem precisava deste colinho tão bom, mas que dispensava ainda mais o aproveitamento de alguns, afinal, o aproveitamento dos do costume. - Jorge Barbosa, jornal Record, 13 de Julho de 2016.

Ó mar salgado, quanto do teu sal [voltam a ser] lágrimas de Portugal
PARIS - Decidi escrever mais um Sous Le Ciel de Paris, porque ontem, já em Orly, apercebi-me, depois de ler a Imprensa francesa, de que ainda havia alguma coisa que estava por dizer. Mas, antes disso, não posso deixar de partilhar a emoção que foi ver, a quase dois mil quilómetros de Portugal, a festa de Lisboa, uma celebração com uma dimensão inédita no nosso País, um sentimento de pertença e de união comovente.
Um sentimento de amor pela Pátria. Um sentimento feito de coisas positivas, sem amarras a um passado que procurou colar essa ideia a outras práticas. Não me envergonhei nunca do orgulho que tenho em ser português, da ancestralidade do nosso legado, do que demos ao Mundo e de quem somos. Mas, durante décadas, este sentimento puro foi muitas vezes - estupidamente - confundido com reacionarismo. Qual quê. É o que somos, quem somos! E acaba por ser a Seleção Nacional a estar na primeira linha da destruição deste complexo contranatura que impedia muitos de gritarem o amor à Pátria.
Com a vitória de Portugal no Campeonato da Europa de 2016, o imaginário pessoano foi recuperado e podemos de novo cantar, «Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!» Porque em cada canto do mundo onde há portugueses ou onde a cultura portuguesa significa alguma coisa, derramaram-se lágrimas de felicidade, lágrimas há muito contidas e que serão recordadas para todo o sempre. Quem viveu o 10 de julho jamais o esquecerá. E a maré encheu com as lágrimas salgadas de Portugal.
Quase não tenho palavras para a imagem fortíssima que foi ver Xanana Gusmão, um dos heróis do Portugal moderno, que dá novos mundos ao mundo e defende a liberdade e os direitos humanos, em Dili, sentado na janela de um automóvel a celebrar os heróis de Saint-Denis. O mesmo Xanana a quem tive oportunidade de oferecer, nas faldas do monte Ramelau em Timor-Leste, um emblema de ouro de A BOLA e que me disse: «A BOLA é um grande jornal, representou sempre muito para nós.»
Além deste turbilhão de emoções, confesso que foi com agrado que acabei de ler as edições de terça-feira do L'Équipe, do France Football e do Le Monde. Em todos eles, a contragosto, como se lhes estivessem a arrancar a pele, encontramos o reconhecimento ao mérito de Portugal, à excelência da liderança de Fernando Santos (sublime o artigo de António Bagão Félix, que já li, e que se encontra na página dois desta edição), ao primado da ideia que sempre balizou o percurso da turma das quinas e à liderança de Cristiano Ronaldo, a inspiração de um um grupo que, noutros tempos, valeria, por certo, um Canto d'Os Lusíadas. - José Manuel Delgado, jornal A Bola, 13 de Julho de 2016.

A taça e as traças
Entre as ridicularias de alguns opinadores, bloggers e outros adeptos franceses com as suas 'dégueulasses' (faz mais sentido, já agora, traduzir esta palavra por 'perverso' ou 'sujo', do que insistir no 'nojento'), as suas petições para a repetição da final (o jogo tem sido reproduzido nas televisões e Portugal ganha sempre...), as suas comichões homofóbicas ou as suas azias mal disfarçadas - e o tempo perdido por muitos portugueses a indignar-se e a responder (alguns na mesma moeda...) a estas opiniões ignorantes e retardadas, nem sei dizer quem faz a figura pior. A Seleção Nacional é campeã europeia com todo o mérito, desde logo porque ninguém ganha uma competição destas sem o ter, e ponto final. Só isso interessa. O resto são 'fait-divers'.

O futebol da Seleção não teve 'nota artística', mas teve 'nota técnica' e 'nota tática', sobretudo esta última. Portugal defendeu muito? Sim, mas também atacou muito. Aliás, o grande mérito desta equipa foi saber defender com todos e atacar com todos. Ninguém se limitou a lutar pela sobrevivência. Houve paciência e concentração para deixar os adversários subir no terreno, não lhes dar espaço de (grande) manobra e roubar-lhes a bola para iniciar o contragolpe. A tática resultou, porque todos a souberam interpretar bem e foram eficazes na hora das decisões.

Não foi melhor, nem pior. Foi diferente o jogo português. Pragmático e cínico, sim. E qual é o mal? É deixá-los falar. A taça está cá e as traças ficaram lá. - Luís Milhano, jornal Record, 13 de Julho de 2016.

Mundial é um objetivo obrigatório
O estatuto que Portugal passou a ostentar após a memorável jornada do Stade de France não lhe permite outra coisa que não seja assumir, quando chegar a hora certa, o objetivo de lutar pelo próximo Campeonato do Mundo, na Rússia. É um desafio gigantesco, o maior de todos, mas o campeão europeu não pode ficar de fora da lista de candidatos. Não há pressas nem angústias porque o momento é para desfrutar e também porque 2018 ainda vem longe. Pelo caminho há muito a fazer e o primeiro passo de todos - assim que a euforia acalmar e for altura de voltar a arregaçar as mangas - será confirmar a renovação de Fernando Santos. Depois disso, então sim, surgem duas etapas pré-Mundial. 1.ª: a qualificação para o próprio Campeonato do Mundo, obviamente. 2.ª: a primeira participação na Taça das Confederações, que decorrerá entre 17 de julho e 2 de julho de 2017.

uma base extraordinária para atacar os próximos dois anos, talvez os mais aliciantes e sedutores na longa vida da Seleção Nacional. Os mais velhos do onze que disputou a final de Paris são Pepe, José Fonte e Cristiano Ronaldo. E esses terão, no Mundial da Rússia, 35, 32 e 33 anos respetivamente.
O caso do central do Real Madrid poderia ser o único a suscitar algumas dúvidas. Mas se Pepe é hoje, aos 33 anos, o melhor central do Mundo, então há boas razões para acreditar que em 2018 ainda será indiscutível. O mais fantástico de tudo, no entanto, é saber que aqueles que vão assegurar o futuro também já ajudam a garantir o presente. Sobre Renato Sanches já quase tudo se disse. Talvez só falte dizer que se tornou impossível fazer planos a longo prazo que não o incluam. Pensar que ainda há poucas semanas havia tanta gente ilustre a duvidar das condições do jovem médio para ser titular neste Europeu... Acontece aos melhores, claro. - Nuno Farinha, jornal Record, 13 de Julho de 2016.

Maracanazo dos tempos modernos
São muitos os episódios à volta do dia em que a confiança insolente de um povo foi confrontada com aquilo que o antropólogo Roberto DaMatta considerou "a maior tragédia da história contemporânea do Brasil". A lenda do Mundial de 1950 tem um enorme protagonista: Obdulio Varela, o capitão que, contra a evidência de um circo romano em que os uruguaios seriam as vítimas, criou uma contracorrente emocional decisiva. Diz-se que, em plena cabina, pegou no jornal 'O Mundo' e, depois de ver a capa, lhe urinou em cima. Havia um motivo: a foto da seleção canarinha era gigante e enquadrava a frase "Estes são os campeões mundiais". Quando as equipas, se formaram para o registo da praxe, 'El Negro Jefe' ficou furioso com os repórteres fotográficos que foram, quase todos, para o lado errado da história. Gritou ofendido: "Deixem esses macacos em paz e venham para aqui. Tirem fotografias, sim, mas aos campeões, que vamos ser nós:"

O sucesso de Portugal, que não precisou de um chefe como Obdulio, começou quando Fernando Santos fez os seus soldados acreditarem nas ideias, no estilo e nas prioridades do futebol que escolheu. Pacho Maturana, o 'Sacchi dos Trópicos', afirmou que "temos de morrer sem nos atraiçoarmos", alertando para a necessidade de os treinadores não abdicarem do que pensam face a pressões ou fracassos iminentes. FS resistiu à mudança mas acabou por moldar algumas linhas orientadoras do guião sem beliscar as suas mais íntimas convicções. Chama-se a isso bom senso.

Pouco importa agora incidir a reflexão da vitória no Euro se o futebol de Portugal devia ter calibrado melhor ordem e entusiasmo; disciplina e liberdade; luta e criatividade; responsabilidade e irreverência. Se, no fundo, o talento não permitia tomar decisões mais ousadas quando confrontado com ter ou não ter bola; jogar com esperança ou receio; fazer do jogo uma festa ou uma guerra. FS definiu um rumo e todos, incluindo os principais artistas, se comprometeram com as suas opções. A Seleção foi uma equipa temível, por ter coordenado todos os elementos que influenciam o coletivo e pela cumplicidade entre comando e comandados, prova de que só acreditando no líder o treinador consegue transmitir o que pretende e os jogadores aceitam o rumo que lhes é dado.

FS resolveu alguns problemas corrigindo o primeiro instinto: Renato, Adrien, Cédric e Fonte acabaram titulares; o 4X3X3 foi mais utilizado do que seria de esperar e Éder pôde aplicar o tiro mais importante da história do futebol português. O resto foi não dar crédito às imbecilidades de ex-jogadores e comentadores franceses; sorrir perante as certezas irrefletidas do senhor que tira macacos do nariz e põe na boca; venerar o apoio dos emigrantes e não cometer erros. Nunca cometer erros. Acima de tudo, Portugal foi uma equipa competente, que nunca ofereceu, por exemplo, penáltis como o de Schweinsteiger, muito menos reeditou as falhas infantis de Kimmish e Neuer que empurraram a França para a final. O futebol da Seleção não deslumbrou. Mas a paixão, enquadrada por estratégia bem assimilada, também pode ser um espetáculo deslumbrante.

No Stade de France, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, cumprimentou sorridente a equipa portuguesa, deu os "parabéns" a FS e não manifestou sinais de surpresa no momento da festa que silenciou Paris. Já Jules Rimet, líder da entidade máxima do futebol em 1950, grato pela organização do Mundial canarinho, terá afirmado num círculo de amigos: "Estava tudo previsto naquela tarde, menos a vitória do Uruguai." Lá tinha as suas razões: entregou a Taça a Obdulio Varela na cabina porque, no relvado, hão houve condições físicas e emocionais para fazê-lo. Em Saint-Denis não se chegou a esse extremo. O espírito do Maracanazo esteve lá, é certo. Os tempos é que são outros. - Rui Dias, jornal Record, 13 de Julho de 2016.

Figo-Rui Costa 'vs.' Raphael-Renato-Éder
PODEMOS recuar a Eusébio, Coluna, Hilário, Vicente, Jaime Graça, José Augusto, Torres, Simões - 3.º lugar no Mundial-66, meia-final perdida (2-1) com Inglaterra que jogou em casa e seria campeã, Eusébio estrela universal, rei dos goleadores (9 golos em 6 jogos). Geração de ouro - vincou excecional Benfica bicampeão europeu e 3 vezes vice-campeão, bem como o Sporting vencedor da Taça das Taças -, a qual, porém, vítima de amadorismo na FPF, não voltaria a qualquer fase final!
Podemos lembrar Humberto Coelho, António Oliveira, João Alves, elite que a Seleção desperdiçou. E a geração de Bento e Damas, Jaime Pacheco e Sousa, Diamantino e Carlos Manuel, Fernando Gomes, Nené, Manuel Fernandes, sobretudo de Chalana e Jordão - 3.º lugar no Europeu-84, meia-final perdida (3-2) no prolongamento com França campeã. Geração dilacerada por dentro, na mesquinhez de clubite Benfica-FC Porto, e que, no Mundial-86, reforçada com o menino Paulo Futre, caiu de borco em guerra total com a direção federativa!
E a Seleção-2012, a um triz da final... (penalties com Espanha campeã). Mas lembramos, sobretudo, a 2.ª geração de ouro, erguida em dois títulos mundiais de sub-20, liderada por Figo, Rui Costa, Vítor Baía, Paulo Sousa, João Pinto, Fernando Couto, Jorge Costa: 3.º lugar no Euro-2000, e, ainda com alguns deles ao lado de novas estrelas - Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Deco, Costinha, Maniche, Ricardo, Nuno Gomes, Pauleta e... o menino Ronaldo - 2.° no Euro-2004, 4,º no Mundial-2006. Esta geração perseguiu a fundo o grande sonho e tão pertinho esteve de o alcançar... Que sentirão agora Figo, Rui Costa & companhia, vendo os recém-chegados Cédric, Raphael, Fontes, William, Danilo, Adrien, Renato, Éder... serem, logo à 1.ª, campeões da Europa?! - Santos Neves, jornal A Bola, 13 de Julho de 2016.

Foi tão bom ver Portugal unido
A noite de domingo e a mágica segunda-feira que se seguiu foram diferentes. Não é todos os dias que se ganha um Europeu. Por estas paragens nunca tinha acontecido. Mas depois de muitas festas, tantas lágrimas, rasgados sorrisos e celebrações várias, uma das coisas mais bonitas que fica é a sensação de ver Portugal unido. A festa espalhou-se por todos os continentes, pois não há nenhum que não tenha um português a cantar o hino, mas o que se viu em Lisboa e se presenciou pelo País não vi muitas vezes em 44 anos de vida.

Haverá quem diga que é triste que seja só o futebol a conseguir isto. Mas este é um dos poucos sectores em que Portugal se bate e vence os melhores. E tem até um engenheiro que não poderia ser político pois cumpre o que promete.

Após a final de Paris, nas festas, bebedeiras e loucura coletiva que se seguiu não houve Benfica, Sporting ou FC Porto. As redes sociais que passaram o Europeu a destilar ódio, fosse por Renato Sanches, fosse pelo meio-campo do Sporting, esqueceram todas as guerras. Foi bom sentir Portugal a uma só voz. Nas ruas da capital a correr atrás do autocarro de Portugal. Nas praças de cada cidade, vila ou aldeia. Nos Facebooks e Twitters. De Rui Patrício a Éder, todos mereceram um elogio. Confesso, soube mesmo bem. Ver tantos portugueses felizes não acontece todos os dias. Novos, velhos, homens e mulheres. Ontem foi um grande dia. Que o futebol sirva de inspiração.

Agora vai voltar a bola interna e rapidamente se esquecerá o clima idílico dos últimos dias. Ainda assim pode ser que esta conquista traga, pelo menos, mais respeito pelos jogadores adversários. Pelos homens que conquistaram um título tão desejado, esquecendo a com petição caseira que viveram tantos fins de semana. Não acredito muito, mas enquanto há vida... - Bernardo Ribeiro, jornal Record, 12 de Julho de 2016.

Orgulho nacional
Aprendi, ao longo da carreira, que para ser árbitro competente e imparcial, deveria ser o mais pragmático e racional possível, em campo. Embora as emoções estejam sempre presentes, estas devem ficar guardadas para o homem, para o amante do futebol que há em cada árbitro. Mas essa linha, a que separa essas realidades, é ténue. A capacidade de a traçar, sabendo que ela quase se confunde, é a que distingue o bom do excelente. Nesta ou em qualquer carreira.
É certo que seremos sempre o resultado da competência e do saber com as inerências emocionais, mas há profissões em que apenas a razão devia impor-se, deve decidir, com distanciamento das tentações que o coração tantas vezes nos tenta impingir. É assim na arbitragem como na advocacia, na magistratura, na medicina e em tantas áreas.
No domingo, o ex-árbitro Duarte Gomes torceu pelo seu colega inglês e equipa. Torceu para que ele fosse competente, para que tivesse noite feliz e para que soubesse encontrar a sorte. Torceu para que ele acertasse muito e para que não ficasse ligado ao resultado.
No mesmo domingo, o Duarte Gomes pai, filho, irmão, amigo e colega de muita gente, quis que Portugal vencesse. Quis que Portugal derrotasse a França, sem dó nem piedade. Quis que Portugal desse a chapada de luva branca que a humildade devia à prepotência. Quis que Portugal representasse a vitória dos oprimidos contra os opressores, da crença e do querer contra o chauvinismo e a arrogância. No domingo, o Duarte Gomes homem quis que Portugal vingasse derrotas do passado e que fosse campeão europeu.
Conseguem compreender o dilema ao ver aquele jogo, enquanto trabalhava? A luta interior que foi analisar com a razão sem sucumbir aos desvarios da emoção? Era a arbitragem de uma das mais importantes finais desportivas do planeta, em que uma das equipas presentes era a Seleção de todos nós!
Sabem uma coisa? Não foi tão difícil quanto imaginei. Foi até bem mais fácil do que supus. Quando os anos e a experiência ensinam a separar a razão do coração, tudo se torna mais fácil. E essa é uma dívida que jamais poderei pagar à arbitragem. Uma de muitas.
Mas a história, por estes dias, não se escreve com páginas sobre árbitros. Não deve nem pode, aliás. Escreve-se pela brilhante etapa que uma geração ultrapassou em nome de um povo. Um povo que há muito merecia alegria assim, que lhe devolvesse a esperança e que lhe transmitisse mensagem: a de que quando a vontade é grande, não há obstáculo, dor ou medo que não se ultrapasse, que não se vença ou que não se supere.
Well done, boys. E obrigado... - Duarte Gomes, jornal A Bola, 12 de Julho de 2016.

Ronaldo: herói e mártir
QUANDO Cristiano Ronaldo disse que queria vencer o Campeonato da Europa para dar uma prenda ao povo português terão sido poucos que lhe deram importância. Pelo contrário, foi criticado por estar a banhos em Ibiza quando os companheiros já trabalhavam no Jamor, sem se dar conta que acabara de triunfar na Liga dos Campeões com a camisola do Real Madrid. Ele e Pepe gozavam o descanso merecido e concedido pelo selecionador. Confesso que também eu não me fixei nessa declaração que era o anúncio do momento encantador que estamos a viver. Classifiquei-a, na altura, como simples gesto de simpatia da parte de quem desfrutava a terceira Champions da carreira. Avaliei mal a situação, porém. Erro meu, por não ter levado em devida conta que Ronaldo é viciado em vitórias e em títulos e obstinado em conseguir sempre mais e melhor, revelando uma ambição sem limites na descoberta de patamares suficientemente elevados que lhe permitam tocar a perfeição.
Este foi o Europeu que Ronaldo quis oferecer a todos os portugueses e aquele em que muito se sacrificou para alcançar esse objetivo. Ultrapassada a barreira dos 30 anos, sentiu que, provavelmente, se lhe deparava a derradeira oportunidade de alcançar conquista de grande dimensão internacional pela Seleção.
Se já era o melhor jogador do Mundo, a partir de agora deve ser visto também como o melhor capitão do Mundo, a extensão perfeita de um treinador junto do grupo de jogadores.

RONALDO foi o guia, dentro e fora do campo. Foi o arquiteto da ponte de amizade que se estabeleceu entre a Seleção e a maravilhosa comunidade lusa em França. Foi o psicólogo que levantou o moral de companheiros em períodos críticos, como a história da grande penalidade apontada por Moutinho no jogo com a Polónia e o empurrão revitalizador ao esgotado Raphael Guerreiro, com a França. Foi amigo de todos nos treinos, com infinda disponibilidade para dar sorrisos, abraços e afetos.
Na noite de domingo, ao lado do selecionador, no banco de suplentes, foi sofredor e o braço direito de Fernando Santos na ajuda que lhe deu no envio de mensagens de confiança e de motivação para o interior do recinto de jogo.
Depois das lágrimas do capitão provocadas pela lesão e consequente saída de cena, depressa emergiu a tal força de acreditar que emprestou a esta equipa portuguesa uma solidez granítica na defesa dos seus interesses desportivos, além de contar com a comovente cumplicidade de milhares de portugueses e portuguesas, os quais viram o seu inestimável apoio recompensado quando Ronaldo ergueu o almejado troféu.

A nossa Seleção apresentou-se em Paris, não para estragar a festa dos franceses, mas sim para fazer a festa dos portugueses e para provar que apesar de ser um país pequeno em superfície é, confirmadamente, uma potência do futebol mundial. Estivessem os nossos governantes ao nível dos nossos futebolistas em talento, dedicação, garra e vontade de ganhar, de certeza que em Bruxelas olhariam para nós com mais respeito...
Ronaldo assumiu-se como líder e, além disso, foi o maior dos heróis. Pelo que jogou, apesar das pesadas consequências de temporada exigente, disputada ao mais alto nível e em cenários muitas vezes desfavoráveis, e pelo que representou na Seleção e no relacionamento com o povo. No entanto, pagou fatura pesada pelo facto de ser a grande referência de Portugal.
Na conferência de imprensa da projeção do jogo, Didier Deschamps teve duas frases enigmáticas:
1. «Se existe plano anti-Ronaldo ninguém sabe a receita»;
2. «Neutralizar Ronaldo seria perfeito, mas reduzir a influência que tem na Seleção de Portugal já seria bom».
As palavras são dele e trago-as à colação sem qualquer intuito bacoco, mas não deixa de ser um raio de coincidência a entrada desabrida de Payet precisamente sobre o joelho mau de Ronaldo: o esquerdo. Não quero insinuar sequer que houve a intenção por parte do jogador francês de excluir o capitão português do palco do jogo em maca, de o transformar em mártir da arrogância gaulesa, mas acredito na intenção de entrada rijinha para provocar dor e inibição. Não significa que tenha sido assim, mas os treinadores que se dão ao trabalho de me lerem sabem que não estou a dar nenhuma novidade... Há quem recorra a esses estratagemas com a ideia de fragilizar o opositor.
Enfim, como prémio de consolação Payet aparece no primeiro lugar do barómetro da UEFA. Tenham paciência... O novo campeão da Europa é Portugal: Ronaldo quis, Santos acreditou e a obra nasceu. - Fernando Guerra, jornal A Bola, 12 de Julho de 2016.

Muito obrigado...
A nossa Seleção lutou contra tudo e todos para conseguir ser campeã da Europa. Confesso um prazer especial pela conquista ter sido em território francês. Os nossos emigrantes são fabulosos e foram absolutamente extraordinários no incondicional apoio dado aos jogadores portugueses, mas durante anos, meses, dias, horas sentiram na pele a tradicional arrogância, francesa. Esta vitória serve para os milhões de portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo aumentarem o seu orgulho e autoestima que por vezes anda em baixo.
A nossa equipa mostrou nesta final uma enorme personalidade e, como já aqui tinha escrito, uma grande capacidade de sofrimento. Mostrámos resistência às adversidades e conseguimos superar com esforço a substituição do capitão Cristiano Ronaldo. As lágrimas de alegria traduzem a nossa ambição, garra, determinação, coragem e vontade de vencer.
Fernando Santos disse que só regressava a Portugal no dia 11, e cumpriu com o prometido. É um homem de Fé, mas fundamentalmente competente que sabe como poucos liderar e gerir emoções.
Na primeira fase do Europeu fiz uma referência ao Rui Patrício que mostrou uma serenidade invulgar com uma atuação história nesta final.
Uma palavra aos adeptos que no estádio calaram a multidão francesa. Serenidade, tranquilidade, personalidade e humildade foram fundamentais. Muito obrigado a todos pela alegria que proporcionaram. O sonho é realidade. Somos campeões. Obrigado Portugal. - Hermínio Loureiro, jornal A Bola, 12 de Julho de 2016.

Feliz por fazer o que gosto
Não gosto nada de dizer que "no meu tempo é que era bom". Há 30 anos, no México, as comunicações eram da 'pré-história', falar para casa só quando calhava e os telefonemas para o jornal eram combinados de véspera. Ontem, quando a Seleção Nacional despediu-se de Marcoussis, estava rodeado de companheiros de estações de televisão e de rádio em transmissões quase instantâneas para o Mundo inteiro, dei por mim a pensar na sorte que tenho por fazer o que gosto e há tanto tempo! De todas as vezes que acabo um Mundial ou um Europeu digo sempre que é a última vez que me meto nestas andanças pois os anos não perdoam. Depois, seco as lágrimas e pergunto-me: que seria de mim sem esta paixão? Obrigado, minha querida Seleção. - José Carlos Freitas, jornal Record, 12 de Julho de 2016.

Portugal foi campeão 'sous le ciel de Paris'
PARIS - Hoje é dia de apanhar o avião e regressar a Lisboa, 35 dias depois de ter partido rumo à aventura do Euro-2016. E que aventura! Saio de França com Portugal campeão da Europa, depois de ter tido o privilégio de ver ao vivo e a cores não só os sete jogos da turma das quinas mas também a vida, por dentro, do grupo liderado por Fernando Santos. Via história a ser escrita à frente dos meus olhos.

SENDO verdade que tudo está bem quando acaba bem, nem tudo foram rosas no seio da Seleção Nacional e depois do empate da Áustria muitas dúvidas foram levantadas. Lapidar a resposta, então, perante dificuldades, do selecionador nacional: «Só vou dia 11 para Portugal e vou ser recebido em festa.»

ONTEM, 11 de julho, com o país feliz e ensonado, Fernando Santos teve a festa com que sonhou e fez sonhar Portugal. A convicção profunda do técnico, nacional nos seus jogadores foi a chave deste caminho vitorioso, com um discurso afirmativo, sem pedir desculpa a ninguém por achar que Portugal podia ser campeão da Europa. Confesso que quando o ouvi pela primeira vez dizer que era esse o objetivo que trazia para a FPF, pensei cá para os meus botões: «Ser possível é, já lá andámos perto; mas daí a consegui-lo são outros quinhentos.»

FOI preciso eliminarmos a Croácia para eu começar a acreditar que pelo menos era possível chegar à final. Mas, contactando diariamente com Fernando Santos, já tinha percebido a enorme força interior que o move e a forma fácil como chegava aos jogadores. E não que o técnico nacional conseguiu mesmo entrar na cabeça dos seus pupilos? E foi isso que fez toda a diferença. A partir do momento em que esta química entre treinador e jogadores funcionou, o céu passou a ser o limite...

ACOMPANHO a Seleção Nacional há quatro décadas, já vi coisas boas e coisas más, nas atitudes, na organização e na mentalidade. O esforço feito este ano foi notável - e estou em condição de fazer esta afirmação - e redundou num relacionamento mais humano com os adeptos, neste caso os militantes marcoussianos, e mais próximo (sem que ninguém ultrapassasse a linha do eticamente certo) com a comunicação social. Estas duas mudanças de atitude, só possíveis com um selecionador que não viva atormentado por fantasmas, resultaram num clima desanuviado de que todos beneficiaram.
E se a Hungria tem feito 4-3 no último minuto, tudo isto que foi escrito teria alguma validade? A resposta é muito simples: em futebol não há ses...

AO longo de mais de um mês em França, confesso que me diverti, sobretudo com as peripécias em torno do galo de Marcoussis, um exercício que mostra como a superstição tem sempre lugar numa atividade como o futebol sem que daí venha algum mal ao mundo. E o râguebi francês, dono do galo (que recebeu da FPF 20 mil euros por dia pela cedência de instalações), sempre pode dizer que foi graças as suas infraestruturas de excelência que Portugal se sagrou campeão europeu, embora isso não deva agradar muito à Federação Francesa de Futebol, que tem sede em Clairefontaine, não muito longe de Marcoussis (30 quilómetros, mais coisa menos coisa).

SUSTOS daqueles que não se desejam a ninguém, só apanhei um ao longo deste tempo todo. Foi em Lens, no dia do Croácia-Portugal, quando a polícia rebocou o carro de A BOLA, com os computadores no porta bagagens. Confesso que aqueles minutos até perceber exatamente quanto tempo demoraria o processo burocrático para levantar a viatura do depósito, foram cruelmente longos. Mas lá conseguimos chegar a horas para o pontapé de saída e a mais do que tempo para assistir ao golo de Ricardo Quaresma, mesmo ao cair do pano.

TAMBÉM posso dizer que saio de França com doutoramento em bouchons, ou seja, em engarrafamentos. O trânsito nas grandes cidades francesas - Lyon, Marselha e Paris - é horrível, não há outro adjetivo que o caracterize com maior rigor. E como fizemos mais de sete mil quilómetros durante estes dias, passámos horas infindáveis nas autoestradas, cujas áreas de serviço já conhecíamos de cor e salteado. No regresso de Marselha - são mais de 800 quilómetros até Paris - tivemos o azar da viagem coincidir com o primeiro dia de férias, o que tornou o trajeto uma loucura, entre autocaravanas e roulottes, que pareciam não ter fim.

RECORDO que quando aqui cheguei a preocupação principal era a segurança e para muitas pessoas ligadas à organização a única questão em aberto era saber o dia em que o Euro-2016 sofreria um ataque. Receios infundados, por um lado; por outro, a segurança que envolveu o evento não foi nada de especial, exceção feita a Saint-Denis, onde os carros eram revistados antes de entrarem no parque e havia cães farejadores pelas salas de imprensa a farejar explosivos.

ANTEONTEM, dia da final, a organização voltou a não estar à altura das circunstâncias. Faltou tudo, até a água era racionada, num exercício de mediocridade de quem passa a maior parte do tempo a pensar que é o suprassumo da barbatana. Enfim.
Aos episódios que tenho contado neste espaço, tinha mais um para acrescentar. Porém, o Fernando Urbano pediu-me para ser ele a narrar os factos, pelo que remeto para uma das páginas deste edição, uma história em que estupidez humana é bem retratada.

DESPEÇO-ME, ainda sous le ciel de Paris, do Sous Le Ciel de Paris. Agora vou em gozo de merecidíssimas férias, regressando ao ativo com novas crónicas a partir de agosto, desta feita no Rio de Janeiro, onde estarei para os Jogos Olímpicos. Vão chamar-se «Brasil a ouro, a prata e bronze» - José Manuel Delgado, jornal A Bola, 12 de Julho de 2016.

Valores nacionais
Três grandes lições podem ser retiradas da vitória portuguesa no Euro'2016. Os princípios não constituem qualquer novidade, é certo, mas, ou pela exposição excessiva de um outro protagonista, ou pela ânsia de se assistir a um espetáculo quase proibitivo nestas circunstâncias, nem sempre lhes é dado o devido valor.

Portugal provou, em primeiro lugar, que só um grande coletivo é capaz de conquistar uma competição deste nível. A Seleção é campeã da Europa porque conseguiu formar uma equipa tão forte que - e não há melhor exemplo - mesmo sem Cristiano Ronaldo derrotou a França, cujo favoritismo aumentou exponencialmente à passagem dos 25', quando o craque foi forçado a abandonar o campo.

O título europeu também só foi possível pelo trabalho extraordinário do selecionador. Fernando Santos esteve irrepreensível em várias facetas. Formou um grupo coeso, ganhou a confiança cega dos jogadores e mostrou-se exímio em termos motivacionais e técnico-táticos, em que preferiu a objetividade ao romantismo. A vitória sobre França, na final, só se tornou possível pela leitura de jogo do técnico português.

Não menos importante foi, por outro lado, a condição física dos jogadores, bem visível nas partidas disputadas no prolongamento. Enfim, um coletivo solidário, um selecionador de várias valências e um staff técnico/médico competente construíram o campeão europeu. - Luís Pedro Sousa, jornal Record, 12 de Julho de 2016.

Desabafos
1. Vencer um Campeonato da Europa é um grande feito desportivo! Compromisso com objectivos consistentes, sacrifício e dedicação na tarefa, união verdadeira, capacidades bem aplicadas, humildade, liderança de gente competente. Poderia ser metáfora de Portugal, mas falta a última parte;

2. Fernando Santos revelou visão, espírito de missão, capacidade de gerir as pessoas antes dos atletas, entendimento da realidade à qual ia reagindo eficazmente. Valorizou a importância do grupo sem negar os talentos individuais. E afirmou a sua autêntica Crença Católica, culturalmente portuguesa, sem complexos perante o modismo idiota, sem fundamento filosófico, de negação da Fé;

3. Ronaldo foi jogador além do relvado, disposto ao sacrifício, dedicado ao projecto colectivo, líder na tarefa e na dimensão sócio-emocional. Afirmou-se feliz pelo treinador, Éder e restantes, sem egoísmos, ofereceu a Nani o troféu que recebeu. Que bom seria se os políticos o imitassem em vez de o bajular;

4. Os imigrantes estiveram sempre presentes. Afirmavam a sua identidade e valor nacional no estrangeiro para onde a gestão de séculos deste país os enviou. Sentiam-se parte de um projecto colectivo para que quiseram contribuir como podiam. Os sacrifícios são o seu quotidiano. Que poderiam fazer em Portugal se a sua alma e desejo de fazer fossem aproveitados? ...;

5. Uniram-se as claques dos clubes rivais! Afinal é possível cooperar por um valor superior. Exemplo para os Partidos? ...;

6. É bom ter o apoio do Poder político. Mas ele não consegue deixar de se pendurar nos holofotes dos vencedores... Seria elegante ficar calado nesse momento. Pauleta deu bofetada sem mão dizendo que não ia ao balneário porque era o momento dos jogadores. Mas ele é Campeão ...;

7. O senhor Presidente da República não se trata pelo nome numa entrevista! É o símbolo máximo do País. Pode aproximar-se das pessoas, mas elas devem manter o tratamento devido. Assim se vulgariza a autoridade e estimula o desrespeito. - Sidónio Serpa, jornal A Bola, 12 de Julho de 2016.

Portugal de supercampeões
Portugal é campeão da Europa! Finalmente, temos a recompensa do tanto que já contribuímos para o futebol com o imenso talento e a enorme paixão que sempre alimentámos. Dez de julho de 2016 passa a ser uma data histórica para Portugal. Paris, que já era uma cidade especial para os portugueses, tornou-se agora a capital da nossa maior conquista. Não poderia haver local mais simbólico para uma proeza desta dimensão.

Queremos lágrimas de alegria foi o apelo que o Record fez no dia em que Portugal jogou a segunda final da sua história. No fim, o desejo cumpriu-se mas primeiro ainda vimos lágrimas de dor na face de Cristiano Ronaldo. O 'homem máquina' cedeu após uma entrada intimidatória de Payet e, de repente, a Seleção ficava órfã da sua superestrela. Se o desafio era enorme, ali tornou-se gigantesco. E, seguramente para muitos, parecia ser impossível vencer. Pensar numa final sem Cristiano Ronaldo era inimaginável. Acreditar que seria possível ganhar sem ele, era simplesmente inadmissível. No entanto, se perdemos o melhor jogador, ficámos com mais um líder no banco e reforçámos o espírito solidário de uma equipa que teve no compromisso total e na capacidade de superação duas armas que nenhum adversário foi capaz de igualar.

Naquele pontapé de Éder que nos deu um título histórico não ia apenas o destino de uma bola rematada por um herói improvável. Ia a força de um passado carregado de ilusões e desilusões e de um presente cheio de ambições.

Foi Fernando Santos o primeiro a colocar a fasquia no ponto mais alto. Abriu as portas ao sonho mas os portugueses tiveram dificuldade em sonhar com ele. Talvez por estarmos tão marcados por adversidades e fatalismos que na esquina da glória nos privam da felicidade plena. Talvez porque apesar do empenho e da generosidade, o nosso fado parece que tem de ser sempre triste. Aos poucos, porém, acendeu-se a chama da crença. Diria mesmo, a chama da fé. E ontem ela esteve presente não apenas no relvado do Stade de France, mas em todo o mundo português. As imagens e os testemunhos do dia de ontem assim o comprovam.

muitos heróis nesta aventura. Os jogadores os treinadores, os adeptos. Mas ninguém pode esquecer também muitos dirigentes e no caso particular, o presidente da FPF, Fernando Gomes. A escolha arriscada que fez revelou argúcia, convicção e visão. É o que distingue um líder. - António Magalhães, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

O profeta tinha razão
Por tudo aquilo que fez até hoje, este é um prémio mais do que merecido para uma Seleção de Portugal que há muito esperava pelo seu momento de glória. Contra tudo e contra todos, desde críticas externas a infelicidades como a lesão de Cristiano Ronaldo, esta equipa soube dar o grito de revolta e teve em Fernando Santos o timoneiro perfeito para a levar ao sucesso.

Aquelas palavras do selecionador, de que só voltaria hoje a Portugal para festejar, ficarão na história do futebol nacional. Tornou o sonho em realidade, com uma prova intensa de confiança no seu grupo e contagiou toda a gente, dos jogadores aos adeptos.

Podíamos ter perdido ontem mesmo no fim do tempo regulamentar, mas estava 'escrito' nas estrelas que esta Taça seria nossa. Com muito mérito. A Seleção está de parabéns! - António Oliveira, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Vale dizer tudo, menos a palavra saudade
PARIS - Escrevo esta coluna sentado no chão, na zona mista do Stade de France, enquanto espero por ouvir os homens que vão ficar na história do futebol português. Faço-o porque me dá jeito, mas também para tirar-me das nuvens. Para voltar a pôr-me no sítio onde devo estar e manter a racionalidade. Mas não é fácil. Depois da daquela noite de 25 de janeiro de 2004, em Guimarães, quando assisti à morte de um jogador em campo, este é o dia mais difícil em gerir as emoções. Elas andam aqui por dentro, às voltas, borbulhando no estômago, querendo saltar, depois de assistir a 120 minutos delirantes, onde vi de tudo: um jogador perder a pose de deus e transformar-se no mais frágil dos humanos, no único momento em que a exceção nunca poderia contrariar a regra; assistir à ovação de pé que milhares de franceses prestaram a um jogador que tanto criticaram; o destino que parecia escrito naquele remate de um gaulês a jogar no México mas alguém terá soprado o couro para o poste e; a outra bola que bateu no ferro, mas no ferro mau; o jogador que afirmou, no início do estágio em Marcoussis; sonhar com um grande momento e poucos acreditarem; o mesmo jogador que usa uma luva branca quando celebra um golo como forma de expurgar males a críticas, mas fundamentalmente como amuleto motivacional. A luva que vi naquela mão negra, apontando o indicador para cima. E eu sem conseguir fazer qualquer comentário. Porque as cordas vocais por momentos ficaram inertes depois do esforço a que foram submetidas com aquele pontapé tão forte quanto a alma coletiva de 11 milhões de crentes.
Chega o apito final. Comovo-me como nunca em 18 anos de carreira. Porque é impossível não ter sentimentos quando se escreve sobre emoções. E sabermos que temos uma família a torcer para que se se juntem as palavras Portugal e campeão no mesmo texto, menos saudade, apesar de muita. É, pois com o enorme orgulho que digo: também sou campeão. Peço desculpa, o melhor é pôr-me novamente de pé. - Fernando Urbano, jornal A Bola, 11 de Julho de 2016.

Parabéns Portugal!
ESCREVO a caminho de Paris e sem saber o resultado final do Portugal-França. Vou cheio de fé num resultado positivo, eu e milhões de portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo que acreditam na Seleção e no mister Fernando Santos.
Importa referir o estudo da Eurosondagem que revela que 77% dos portugueses consideram positivo o trabalho da FPF no Euro 2016 e que 80% apreciam o facto de a Seleção estar aberta ao contacto com os apoiantes, em especial a comunidade emigrante.
Portugal já fez história. Esta final com a França mostra a nossa raça e personalidade absolutamente fantástica que surpreendeu os mais distraídos e céticos quanto ao nosso valor.
A França já nos venceu algumas vezes, mas desta vez acredito que Portugal vai finalmente dar a volta a isto.
Vivemos uns dos momentos mais marcantes da nossa história, não só futebolística mas do nosso País, pois não é normal encontrar Presidente da República, Primeiro-Ministro e Presidente da Assembleia da República juntos. A Seleção é das situações que mais une portugueses, que aumenta o nosso orgulho bem como a autoestima.
Temos conseguido anular sempre os pontos fortes das outras equipas e isso é mérito das estratégias de Fernando Santos que cria uma teia impeditiva de progressão aos adversários. É verdade que não somos favoritos, mas isso pouca conta nas finais.
A receção que hoje o Prof. Marcelo faz à Equipa é inequívoca prova da paixão pelo futebol, mostrando ser o presidente de todos os portugueses. Parabéns, Equipa! Temos orgulho em vocês! - Hermínio Loureiro, jornal A Bola, 11 de Julho de 2016.

Os críticos
"Fernando Santos calou os críticos", dizia-se no final do épico jogo. Senti-me atingido, pois fui um dos críticos. Mas não retiro uma linha ao que escrevi: Portugal no Euro foi uma equipa demasiado resultadista. Nunca foi brilhante. Em sete jogos, empatou seis nos 90 minutos: É "poucochinho", como diria o primeiro-ministro António Costa. "Deus é português e portanto vamos ganhar", escrevia eu anteontem. E assim foi. Deus livrou-nos do grupo dos tubarões e inspirou Santos para meter Éder. Vencemos! Os emigrantes em França tiveram a sua vingança! - José António Saraiva, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Portugal campeão da Europa
PARIS - Quais foram os principais atributos de Portugal na noite mágica de ontem, no Stade de France?
1 - O primeiro foi a personalidade. Não é fácil para qualquer equipa do Mundo jogar em casa da França, num estádio cheio de gauleses histéricos, e nunca se deixar afetar, passar a bola de pé para pé ou colocá-la mais à frente ao som de assobios, como se o fosse a coisa mais natural do mundo. E neste âmbito da personalidade também deve entrar a forma superior como os jogadores de Portugal lidaram com um árbitro que se apresentou sempre com dois pesos e duas medidas, em nítido prejuízo da Seleção nacional. A personalidade que Portugal mostrou no Stade de França esteve ao nível do que a Itália conseguiu em Dortmund, na meia-final do Mundial de 2006, em que derrotou a Alemanha. Uma proeza estratosférica.

2 - O segundo foi a solidariedade. Dentro do campo, ontem, com a intensidade dramática própria de uma final, confirmou-se aquilo que tinha sido visto nos seis jogos anteriores: o lema desta equipa é um por todos, todos por um, Fernando Santos conseguiu entrar na cabeça dos jogadores e é um regalo ver, por exemplo, um jogador como Ricardo Quaresma, tantas vezes considerado por alguns treinadores como um jogador difícil, a ser mais disponível das criaturas. E como o Mustang foi essencial para a vitória de Portugal no Euro 2016!

3 - O terceiro foi a superação. Perder Cristiano Ronaldo na final do Campeonato da Europa aos sete minutos e não abrir brechas técnicas, táticas e psicológicas revela uma força de caráter notável.
Cristiano não merecia o Payet que teve. Mas depois, do lado de fora, fez uma exibição notável, de entrega à equipa. Mesmo sem ele, foi a vitória do Portugal de Cristiano Ronaldo. - José Manuel Delgado, jornal A Bola, 11 de Julho de 2016.

Compromisso define a Seleção
Tudo começou na coragem do nosso selecionador, quer antes do Europeu, quer após o segundo jogo com a Áustria, em que repetiu que só voltava dia 11 e ia ser recebido em festa. Passou para fora e transmitiu muita confiança aos jogadores. Há que destacar o grupo, que teve um compromisso enorme.

A melhor palavra que define a nossa Seleção é compromisso. Houve crença muito grande entre todos os atletas. É difícil referendar uma individualidade na nossa Seleção. Isso define uma equipa. Fomos uma equipa, soubemos sofrer. Acabamos da melhor forma, com o jogador mais criticado a ser o nosso herói.

Tudo está assente na Federação, que dá grandes condições. E ainda há o apoio dos adeptos. É uma vitória muito grande para o nosso povo, para os nossos emigrantes.

Quando Ronaldo se lesionou, só pensámos no que nos podia acontecer mais. A equipa mostrou união e houve uma mudança tática do nosso selecionador. Continuámos a ser uma equipa sem a nossa grande figura mas com os outros predicados: o acreditar, a entreajuda, compromisso e ambição de que a sorte nos podia sorrir. - Marco Silva, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

A primeira de muitas
Foi uma vitória acima de tudo emocionante e o nosso país já merecia há muito tempo. Que possa a ser primeira de muitas no futuro. Que Portugal possa ter muitas a nível de seniores, tal como a nível dos mais jovens. Até mesmo nas próprias modalidades. Portugal foi prova disso ontem, com as medalhas de ouro noutras modalidades. Acima de tudo, sinto um orgulho enorme por pertencer a este país que, apesar de pequeno, a cada dia que passa, mostra a grande qualidade que tem a todos os níveis.

Temos uma grande Seleção e um grande selecionador capaz de motivar todos e incutir o espírito necessário para conseguir ganhar. - Nuno Gomes, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Teremos sempre Paris
Já vai distante o tempo em que Gullit descreveu a Seleção portuguesa como jogando um "football sexy". A conquista de ontem foi construída de realismo e de uma dose adequada de cinismo. A Seleção já não entusiasma como no início da caminhada que consolidou Portugal nas fases finais das competições internacionais. Tudo terá começado com a vitória em Riade e, apesar de alguns percalços pelo caminho, esta vitória é parte desse ciclo iniciado já lá vão duas décadas e meias. Se o futebol tem muito de aleatório, no fim, acaba por premiar o trabalho e os corredores de fundo. Um país pequeno, com muitas fragilidades, também na organização do desporto de competição, tem no futebol um caso à parte. - Pedro Adão e Silva, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Somos nós!
Começar com medo, jogar a sofrer, acabar em lágrimas. Foi uma final como nunca tínhamos visto, nem jogado, nem sentido. Nada do que se passou foi sorte, nada foi fugaz, nada foi acaso. Este campeão que somos fez-se de um campeonato em que fomos uma equipa paciente e humilde, estratega e consistente. Com um treinador brilhante que parecia plúmbeo. Com o incrível Ronaldo que foi capitão, treinador, motivador, jogador - e que, quando saiu lesionado depois de uma falta maldosa (e escandalosamente não marcada), deixou uma equipa a largar sangue na relva. Patrício, Pepe, João Mário - e até um Éder maravilhoso. Não é possível entender o cinismo de quem desdenha nem o azedume de quem não vibra. Somos campeões. Somos campeões! E tanta justiça. - Pedro Santos Guerreiro, jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Ouro, ouro, ouro!
QUE dia, Portugal! Histórico, para sempre inesquecível, 10 de Julho-2016! A rajada de ouro para o desporto português começou com Sara Monteiro e equipa nacional campeãs da Europa da meia-maratona, Patrícia Mamona campeã da Europa de triplo-salto (mais Dulce Félix vice-campeã nos 10.000 metros e medalhas de bronze para Jéssica Augusto, na meia-maratona, e Arnaudov, no lançamento de peso). E o absoluto êxtase chegou à noite, de lés a lés deste país enormíssimo porque se amplia a todo o planeta: Portugal campeão da Europa de futebol!

FERNANDO SANTOS várias vezes garantira que só hoje voltaria a Portugal e trazendo a Taça, frisando «é muito difícil alguém nos ganhar». A França, após eliminar Alemanha e disputando a final em Paris, foi a última, e a maior, vítima dessa convicção. Mesmo ficando a nossa Seleção sem Cristiano Ronaldo, com KO clínico logo aos 10 minutos! Tremendo golpe, dir-se-ia aniquilador! Mas treinador e equipa de imediato reagiram excelentemente. Na pronta, e certeira, mudança tática e na alma... gigantesca. Portugal campeão da Europa porque em alma e capacidade tática/estratégica ninguém ganhou à nossa Seleção! Ao cabo de 7 jogos e final em casa da França, esta é a pura verdade! - Santos Neves, jornal A Bola, 11 de Julho de 2016.

Salvé Portugal campeão!
Durante os 90', como se esperava, Portugal mostrou ótimo sistema defensivo e deu poucas chances à França. Faltou o gol de Ronaldo, que saiu contundido. A França, também como se esperava, não pressionou, jogou um futebol burocrático, com Pogba muito recuado, na posição de armador defensivo, fora de suas características, as de jogador inventivo e próximo à área adversária.

Na prorrogação, não houve mudanças. Até que Éder, em um petardo, fez o gol da vitória e do título. Portugal, que tinha perdido a Eurocopa em casa, em 2004, quando era favorito, ganhou na casa da favorita França. Salvé Portugal, campeão da Europa, merecidamente! Um título inesquecível, emocionante! #somostodosportugal. - Tostão (Campeão do Mundo pelo Brasil em 1970), jornal Record, 11 de Julho de 2016.

Um rio que corre para Saint-Denis
PARIS - Ao domingo, Paris é para amadores. A cidade acorda com uma preguiça danada, indolente, a Torre Eiffel ergue-se em vagares, ainda com dores no longo esqueleto de aço, o Arco do Triunfo abre a sua porta curva e deixa a gigantesca bandeira da França a balançar ao vento suave, a Gioconda reabre o sorriso, no Louvre, o Sena esfrega os olhos, os impressionistas, acabados de se deitar depois de uma longa noite de copos no Museu d'Orsey, dormem que nem uns justos, sonhando com as luzes da madrugada com as quais se deitam como se fossem amantes.
Hoje, porém, Paris aceitou, por uma vez, acordar mais cedo ao domingo. Andam crianças estranhamente vestidas com bandeiras verdes e vermelhas e passam motas com homens que, invariavelmente, se chamam Ronaldo. Há mulheres felizes, tirando fotografias de grupo estendendo a palavra Portugal, que se cruzam em sorrisos largos e piropos consentidos com homens que vestem de azul e repetem incessantemente Allez les bleus.
A loja da Nike, nos Champs Elisées, que tem à venda os equipamentos oficiais da Seleção portuguesa de futebol, tem uma fila de gente à porta com mais de cem metros.
Passam, como sempre, autocarros cheios de orientais desinteressantes e desinteressados, tristes porque os Lafayette estão fechados e não há nada para comprar.
Está calor. Está, mesmo, muito calor. O Eça não perdoaria um calor destes em Paris, maior que o calor do seu Chiado. Lentamente, há um rio que corre para norte, na direção de Saint-Denis, onde uma multidão de polícias atabalhoados só sabe dizer que «não se pode passar por aqui».
Era um rio ainda de águas serenas que foi crescendo num entusiasmo transbordante de gente alegre e, ao que parecia, quase feliz.
Paris, entretanto, vai reconquistando o sossego de domingo e fica pacientemente à espera do resultado do jogo. Sabe que este será um dia diferente no desassossego noturno. Ganhe quem ganhar, Paris estará na rua. Eu, por mim, despeço-me de ti, cidade de encantos e desassossegos. Lisboa espera-me. Au revoir, Paris. - Vítor Serpa, jornal A Bola, 11 de Julho de 2016.

De Paris a Dili
1. Hoje, de Paris a Dili a língua que, com os seus diferentes cantares, nos aproxima vencerá a enorme distância que nunca nos afasta. E que sempre, mas sempre, nos aproxima. Em momentos tão inesperados quanto singulares. Hoje, seremos milhões de portugueses a partilhar vontade e crença. Sabendo que não há nunca vencedores antecipados! Todos acreditamos na nossa vitória. Que será bem difícil. Todos. De Lisboa ao Porto, da Meda à Ericeira, de Viseu ao Funchal, de Ponta Delgada a Sintra. Hoje, outros milhões de amantes da nossa Seleção e falantes da nossa língua estarão connosco. Na crença e também na vontade de conquista. De Luanda à Praia, de Maputo ao Príncipe, do Rio de Janeiro a Bissau, de Malaca a Macau, de Goa a Boston. Todos, todos mesmo, iremos partilhar, ao vivo, pela televisão, pelos novos meios e novas formas de comunicação ou pelas velhas mas renovadas ondas da rádio, o jogo da nossa Seleção.
Se na semana passada, com convicção, aqui escrevi «até Paris» hoje aqui digo que acredito que em Paris viveremos, hoje, uma alegria imensa. E bem intensa! A nossa Seleção, com mérito, conquistou o direito de estar na final deste Europeu. Com um golo fantástico de Cristiano frente a Gales. Um golo à Air Jordan. Tal a impulsão, a força e o gesto! E hoje numa final que será vista por mais de trezentos milhões de telespectadores toda a nossa Seleção mostrará a sua personalidade e a sua maturidade, a sua inteligência e a sua experiência, a sua irreverência e também a sua criatividade. E, se for o caso, e de novo, a sua originalidade! E qualquer que seja o resultado final do jogo de hoje esta Seleção merece o nosso profundo reconhecimento e o nosso sentido agradecimento. Merecem, todos - de Fernando Gomes a Fernando Santos, de Cristiano Ronaldo a Renato Sanches, de Rui Patrício a Nani, de Eduardo a Ricardo Quaresma, de José Carlos Noronha a António Gaspar, de Tiago Craveiro a Humberto Coelho, entre todos os outros, também importantes, que integram a comitiva da Seleção - ser recebidos, amanhã em Lisboa, com intenso calor humano e com um contagiante entusiasmo. Pelo que fizeram, pelo que nos proporcionaram e pelos momentos de identidade e de felicidade que suscitaram. E que levaram tantos e tantos a tentar perceber, por uma vez, a força agregadora do futebol. E o espírito de união que saltou, numa vertigem única, da equipa para as ruas e praças do Mundo mostrou e demonstrou a força singular do futebol. Mas se, como ambicionamos e legitimamente sonhamos, vencermos, no seu estádio de referência - o Estádio de França! - a seleção anfitriã, acreditem que um enorme e apertado abraço - e verdadeiras lágrimas - juntará todos aqueles que em Paris aplaudirão os vencedores e que em Dili, já na alvorada de segunda-feira, motivará milhares de timorenses a sair para as suas ruas livres com aquela emoção que este Europeu e o percurso da nossa Seleção desencadeou e multiplicou. E ajuda a explicar um feito que também eles, de forma singular, igualmente sentem como deles. E que na minha modesta opinião deveria levar a nossa Seleção, em tempos próximos, a Timor Leste! Mas também aquele cantar liderante da jovem portuguesa ou aquelas palavras, roucas de emoção, do jovem de origem portuguesa nas proximidades do centro de estágio da nossa Seleção, são momentos únicos e irrepetíveis deste Europeu. Como o senti e partilhei, de forma evidente, na cidade de Marselha no jogo contra a Polónia. Onde também éramos bem minoritários...

2. Por mim, estarei hoje ao final da tarde a cantar, com força e verdadeira emoção, o nosso Hino naquele emblemático estádio. No meio de milhares que comigo partilham o gosto pelo futebol e o sentimento de orgulho pela proeza desta seleção. E vibrarei, acreditem, com a cautela da nossa Seleção. Sentirei o seu cuidado e a sua serenidade perante a equipa e o ambiente franceses. Perceberei se não jogarem bonito. Digo mesmo: joguem, se for preciso, feio. Joguem mesmo! Aplaudirei, com fervor, os nossos golos e, se necessário outra defesa impossível de Rui Patrício em nova decisiva grande penalidade. Como o fiz abraçando o Bruno e o Nuno em Marselha! E no final, no final mesmo, perante os medíocres da palavra, escrita ou oral, proclamarei, com elegância, que o sonho, o sacrifício, a determinação e a fé - sim também a fé! - venceram a arrogância e a superioridade. Que é sempre bem transitória... Como a história, sempre fria, objetivamente regista!

3. O que igualmente todos sabemos é que cada membro da nossa Seleção, e cada um na sua específica e competente missão, tudo fez - e fizeram! - para dignificar Portugal. O que assumimos, e recordaremos, é que cada um soube conjugar sofrimento com humildade, talento com vontade, confiança com esperança, coração com determinação. E cada gesto de partilha, de generosidade e de agradecimento da nossa Seleção foi um gesto de conquista e de entusiasmo. E houve, reciprocamente, motivação e retribuição. De dentro para fora. E também de fora para dentro! Principalmente em Marcoussis, ponto de encontro de afirmação, de ambição e da saudade! Agora que chegámos à final permitam-nos, a nós que desde o arranque não duvidámos, que o sonho nos leve hoje de Lisboa a Paris. E que regresse concretizado, em euforia controlada, de Paris a Lisboa. De manhã, na ida, ali bem perto do céu, rezarei por Portugal. Com a minha íntima fé. Com a certeza que todos na Seleção acreditam que é possível conquistar este Europeu. E acreditando nesta Seleção, estamos certos que cada jogador, mais ou menos jovem, terá mesmo naquele Estádio de França, uma «alma para além de Almeida». E, no final, as nossas lágrimas de alegria serão, também e justamente as lágrimas de Ronaldo. E de toda a Seleção! E como nos ensinou, também num momento delicado da nossa vida nacional, o nosso Padre António Vieira «o maior mérito das ações heroicas é fazê-las»! É o que importa fazer. Eu acredito! Como todos aqueles milhões que num abraço interno se juntarão em fusos horários diferentes, de Paris a Dili. E com uma intensidade impressionante neste pátrio retângulo que é a nossa âncora, a nossa lareira e o sempre o nosso aconchego! - Fernando Seara, jornal A Bola, 10 de Julho de 2016.

Qual a vantagem das 24 equipas?
O Europeu chega hoje ao fim, mas não vou escrever sobre o Portugal-França. Desde logo porque a nossa Seleção atingiu a final e eu ainda não consegui perceber qual a sua real valia. Cinco dos seis adversários com quem jogámos eram/são da '2ª divisão' europeia e só ganhámos a um. Espero ter uma resposta mais clara a partir das 20 horas. Aquilo que para mim ficou bem evidente foi isto: um Europeu jogado nestes moldes por 24 seleções serve apenas para uma coisa: aumentar a faturação de todos os envolvidos, por força da abertura da prova a novos mercados. Desportivamente, este foi o pior Europeu que vi. E não perco um desde 1984. Manda quem pode, e quem pode é a UEFA. - José Ribeiro, jornal Record, 10 de Julho de 2016.



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